Sobre o Jipe Marciano, as Máquinas de Guerra e o Príncipe Peladão

Recentemente, pousou no Planeta Vermelho o mais sofisticado veículo interplanetária já feito pelos terráqueos: o MSL (Laboratório Científico de Marte, na sigla em inglês), ou Curiosity (“Curiosidade”), como é conhecido carinhosamente pelos amantes da pesquisa espacial. Uma espécie de Jipe que carrega diversos instrumentos científicos, destinado a realizar experimentos que nos permitirão aprender mais sobre os processos geológicos e atmosféricos do nosso vizinho sideral e, por conseguinte, sobre o que se passa na Terra. Além disso, o Curiosity talvez nos permita saber se em Marte há, ou já houve, alguma forma de vida.

Estudos científicos à parte, o MSL encanta, por apresentar imagens deslumbrantes da paisagem marciana, em altíssima definição; entusiasma, por mostrar do que o ser humano é capaz quando une técnica, perseverança e vontade política; acalenta, por materializar o esforço concentrado de milhares de trabalhadores do conhecimento, na maioria anônimos, em torno de um objetivo pacífico.

Há porém, críticos que lamentam os 5 bilhões de reais investidos para projetar, construir e enviar o MSL ao espaço. Alegam que esse dinheiro poderia ser empregado para resolver problemas urgentes aqui mesmo, no solo terrestre, o que nos leva a pensar no destino do dinheiro público, especialmente nos países ricos.

Nos Estados Unidos, berço do Curiosity, o povo pagou cerca de 800 milhões de reais por cada um dos 187 caças F-22 adquiridos pelo Pentágono, e continuará bancando os elevadíssimos custos operacionais desses aviões, ao longo dos anos. Além disso, sustenta dez porta-aviões da classe Nimitz, construídos por mais de nove bilhões de reais a unidade, e operados ao custo diário de dois milhões de reais cada – soma que se multiplica imensamente nas operações de guerra.

Fazendo as contas, portanto, o MSL custou ao povo norte-americano o equivalente a seis caças F-22, ou à operação rotineira, por um ano, de sete porta-aviões. Nada mal, para um marco tão importante na história da ciência.

A Grã-Bretanha, por sua vez, tem apenas um porta-aviões, muito mais modesto do que os poderosos Nimitz. Em compensação, tem esbanjado o dinheiro do povo de forma mais chamativa.

Afinal, quem não viu as fotos do príncipe Harry, nu, em uma enorme suite de Las Vegas, ao lado de convidados igualmente à vontade? De passagem, cabe lembrar que Harry não é um adolescente qualquer, mas um homem de 27 anos, terceiro na sucessão ao trono, logo após o príncipe Charles e o príncipe William. Mas, voltando ao ângulo financeiro da questão, consta que a referida suite custa mais de 15 mil reais por noite. E é claro, na viagem do príncipe há também as despesas com deslocamento, segurança e consumo, muito além dos seus rendimentos como militar na ativa.

Ora, se quem pagou pela farra foi a Coroa, o dinheiro veio do Tesouro. Mas, se quem pagou foram amigos da família real, o dinheiro lhes voltará às mãos com juros, por meio do tráfico de influência nos negócios do Reino. Em todo caso, quem perde são os cidadãos britânicos, que amargam a degradação dos serviços públicos em nome da austeridade ante a crise econômica. Por esse ângulo, a conduta do príncipe é duplamente obscena.

Pergunta-se, então, qual o melhor investimento: fomentar a pesquisa astronômica, promover a indústria das armas, ou acoitar a luxúria da realeza? Para mim, a resposta é clara: eu saúdo o jipe marciano, esconjuro as máquinas de guerra e dispenso as fotos do príncipe peladão.

Uma ideia sobre “Sobre o Jipe Marciano, as Máquinas de Guerra e o Príncipe Peladão

  1. arnaldodg

    Simplesmente magistral!
    Acho que estávamos precisando de um colunista de raciocínio feroz e claro para nos apontar a direção “do que se critica”, e com isso nos proteger da “criticagem vulgar”.

    Obrigado Amorim, por compartilhar pensamentos tão verdadeiros e precisos com eloquência singular.

    Que Deus nos abençoe =]

    Resposta

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