Ouçamos o Cronista, pelo Amor de Deus!

Em Salvador, há poucos dias, quatro mulheres foram mortas em menos de 48 horas, por motivos “passionais”. Um dos assassinos suicidou-se, logo após matar a ex-esposa: deixam órfãs três meninas, a mais nova com apenas quatro anos. Foi o presente dado às filhas, nas vésperas do Natal: uma dor incurável que as marcará para o resto da vida. Era mais um, dentre tantos homens que querem uma mulher na marra – pobres coitados, porque não leram Lima Barreto.

É que há quase cem anos, o Cronista ensinava que os homens “não têm sobre as mulheres domínio outro que não aquele que venha da afeição”. Ou seja, só o amor cativa. Logo, se uma mulher rechaça a convivência do namorado, noivo ou marido, é porque o amor entre ambos não se sustenta. Às vezes as suas metas se tornam incompatíveis. O homem se faz agressivo, ambicioso ou distante. A mulher se torna fria e calculista, ou demasiado exigente. Arrefece a sensualidade. Ou simplesmente caduca o cálculo financeiro que selou a união. Por esses e outros motivos, namoros, noivados e casamentos terminam, mas a vida continua.

O homem que tenta aprisionar uma mulher afronta o bom-senso, a natureza e o direito. Quando ofende, fere ou mata aquela que o rejeita, afronta também a lei, e deve ser punido, com rigor e rapidez, para que outros covardes não se animem a imitá-lo. A impunidade estimula os machos agressores e intimida as mulheres indefesas.

Mas o problema não é só de impunidade, é também de educação. E não se resolverá, enquanto as famílias e os meios de comunicação exaltarem a mulher sedutora, submissa e disponível para servir homens boçais. É preciso, portanto, que nas moças se cultive a autoestima, e nos rapazes, o respeito pelas irmãs alheias, tal como gostariam de ver respeitadas as suas próprias irmãs. E que a televisão pare de mostrar mães e filhas como peças de carne no açougue, vendidas a soldo de alguns trocados e mais quinze minutos de fama.

Educados e atentos à lei, que os homens amem as mulheres, com respeito e lealdade. E se não souberem amá-las (ainda com Lima Barreto), “não as matem, pelo amor de Deus!”.

(As passagens de Lima Barreto aqui referidas são da crônica “Não as Matem”, publicada em 1915. Disponível sob domínio público em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraDownload.do?select_action=&co_obra=7555&co_midia=2)

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