E Agora? É a Máfia Boliviana?

Multiplicam-se no Brasil, sem solução à vista, os casos de trabalho escravo na fabricação de roupas. Dessa vez a reportagem da Folha acompanhou uma operação do Ministério Público do Trabalho em Americana, importante cidade do interior paulista. As constatações são rotineiras: dezenas de bolivianos trabalhando sem carteira assinada, em condições insalubres e amontoandos em moradias precárias, improvisadas pelos patrões. A oficina visitada produzia para a empresa HippyChick, que fabrica produtos com a etiqueta Basic+, a pedido das Lojas Americanas.

Repete-se, com outros contornos, o enredo da carne de cavalo na Europa: uma marca famosa (Lojas Americanas), sob propriedade de um fundo de investimentos desconhecido do público, contrata a produção de itens junto a uma segunda empresa (HippyChick). Esta, para baixar custos a qualquer custo, contrata fornecedores obscuros, na medida do possível sem deixar rastros documentais. Fecham os olhos e, quando os fatos vem à tona, todo mundo diz que não sabia e reprova. Em nota oficial, as Americanas dizem que “repudiam qualquer tipo de trabalho realizado em condições degradantes e que estão apurando o ocorrido”. Afinal, quem pensaria o contrário?

Acontece que as grandes empresas, quando impõem aos fornecedores contratos draconianos, sabem que algumas economias, ao longo da cadeia produtiva, ocorrem por meio de desvios éticos e legais. Sabem, porque seus sistemas contábeis são sofisticados o bastante. Mas os fundos de investimentos querem lucros altos e rápidos, e os consumidores, produtos baratos. Quando a conta não fecha, por meios lícitos, os meios ilícitos sempre entram na ordem do dia. E sofrem os trabalhadores bolivianos, paquistaneses, indianos, chineses, congoleses e outros mais.

Na Europa, acusaram a máfia romena pela lasanha que relincha. No Brasil, o trabalho escravo deve ser culpa da máfia boliviana. Ou quem sabe, dos banqueiros e empresários corruptos, amparados por um sistema jurídico que nunca pune quem tem pedigree.

Aguardemos, pois, as apurações do lobo, a fim de que se esclareçam os maus tratos às ovelhas.

Enquanto espera (com calma) o resultado das investigações, veja as notícias em http://www1.folha.uol.com.br/mercado/1231646-roupa-de-marca-era-feita-com-trabalho-analogo-a-escravo.shtml e nos links associados.

Uma ideia sobre “E Agora? É a Máfia Boliviana?

  1. Vanessa Santana

    Eu fui criada em Americana-SP, a decadente Princesa Tecelã. A cidade que teve seu desenvolvimento alicerçado na indústria têxtil, viu a crise chegar com a invasão dos produtos chineses – muitíssimo mais barato. Hoje, a cidade sobrevive com algumas grandes indústrias instaladas no município, mas frequentemente exporta sua mão-de-obra para outras cidades do Estado – por exemplo meu pai e mãe que trabalhavam em São Paulo (200 km) e Campinas (50 km), respectivamente.
    E agora, a sua tradição no segmento serve de brecha para a instauração dessa mácula.
    Conhecendo a população de Americana como eu conheço, garanto que muito estão surpresos e outros tantos não estão nem aí.
    E viva a globalização!!! Cidade brasileira, decadente por causa da China, agora explora através de empresas de capital americano (ou não) os bolivianos (cuja a exploração parece ter sido cravada em seus destinos desde a exploração sanguinária que se sucede há tantos séculos – excepcionalmente relatada por Eduardo Galeano).
    Mesmo que algo seja feito a respeito desse caso isolado, outras tantas tecelagens clandestinas – conhecidíssimas em bairros de São Paulo como o Brás, o Bom Retiro, etc, continuaram chicoteando os escravos como há muito vem acontecendo…

    Resposta

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