O Gigante Está Bêbado?

A Lei no 10.671, de 15 de maio de 2003, conhecida como “Estatuto do Torcedor”, diz o seguinte, no Artigo 13-A, inciso II: “[É condição] de acesso e permanência do torcedor no recinto esportivo, sem prejuízo de outras condições previstas em lei, não portar objetos, bebidas ou substâncias proibidas ou suscetíveis de gerar ou possibilitar a prática de atos de violência. Por isso, desde que esse inciso foi acrescido pela lei 12.299, de 27 de julho de 2010, não é permitido vender qualquer bebida alcoólica nos estádios brasileiros. Claro: se não é permitido “portar”, também não se pode vender.

Ou não se podia, até os políticos dobrarem a lei para satisfazer aos desmandos da FIFA e dos seus patrocinadores: uma subversão grave da nossa soberania que, como tantas outras, passou quase desapercebida e ficará impune. Portanto, nos jogos do campeonato brasileiro o torcedor não pode comprar a sua cervejinha por três ou quatro reais – o que ao menos faria a alegria dos ambulantes. Mas, na copa das confederações (grafada com letras minúsculas), teve acesso à cerveja “oficial” do evento, por doze reais (isso mesmo: doze reais!) o copo. Ou seja, depois da aberração legal e diplomática, o abuso do poder econômico. Como se diz no popular, além da queda, o coice.

Não obstante, a imprensa noticia que durante o jogo Uruguai x Itália, no último dia 30, os torcedores protestaram energicamente na “Arena” Fonte Nova, porque a cerveja parou de ser vendida meia hora antes de terminar o segundo tempo, conforme determina a própria FIFA. Como o jogo foi para a prorrogação, e daí para os pênaltis, o teor alcoólico baixou e muitos se sentiram prejudicados. Enquanto isso, fora dos estádios, um mundo de gente se arriscava nas ruas do País, cobrando dos poderes o aprimoramento das leis ruins e o respeito a tantas leis boas que temos.

Os políticos, é claro, ganham alguma coisa quando decidem rasgar a lei em favor de uma grande transnacional das bebidas e de uma organização desportiva notoriamente corrupta. E os demais cidadãos? Ganham o que, comprando cerveja por um preço abusivo, à margem da lei e da soberania nacional?

Andam dizendo por aí que “o Gigante”, acordou, isto é, que o Brasil finalmente despertou para as suas responsabilidades civilizatórias. Infelizmente, porém, para uma parte do povo o gigante continua dormindo – e bêbado, ainda por cima.

2 ideias sobre “O Gigante Está Bêbado?

  1. Tiago Pereira

    É o poder causado pelo nosso panem et circense brasileiro; o futebol desde sempre e por muito tempo induz a esses e outros tipos de arbitrariedades. Texto perfeito professor, compartilhei aqui nas redes e já esta sendo muito bem recebido (leia-se, curtidas e comentários do tipo: perfeito/sem mais/…).

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  2. Gustavo Bastos

    Estou aproveitando a copa para ler os arquivos do blog e vi esse post que continua atual.
    Inclusive está fazendo sucesso na internet uma crítica humorística da FIFA, em que essa mudança na lei é citada, assim como a isenção de impostos e os gastos públicos absurdos: http://youtu.be/DlJEt2KU33I
    Interessante que cita uma medida que houve na copa da África do Sul e que felizmente não ocorreu aqui, que foi a instauração de tribunais da FIFA. Como exemplo, ele comenta um caso de dois ladrões que roubaram jornalistas estrangeiros em uma quarta-feira, foram presos na quinta e na sexta já estavam começando a servir suas sentenças de quinze anos de prisão.

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