Ferraris, Lamborghinis e Migalhas Educacionais

O site Estudar Fora (http://www.estudarfora.org.br) apresenta quatorze jovens brasileiros, entre 17 e 19 anos, aprovados em universidades estrangeiras de grande prestígio. Como suas famílias não podem bancar os custos decorrentes, esses meninos e meninas pedem doações para enfrentar os estudos no exterior. No total, buscam cerca de 900 mil reais. Contudo, podemos descontar um caso que pede muito além da média, e considerar apenas o seu pedido mínimo. Com isso, o montante solicitado cai a 650 mil. Até o dia 3 de julho, mais de um mês após o início da campanha, só tinham conseguido 192,5 mil reais, sendo 80 mil de um único doador, para a conta de determinado solicitante. Os outros treze, em conjunto, conseguiram 107 mil reais, ou, seja, menos de 20% dos 570 mil esperados por eles. Sete jovens conseguiram menos de 5% do valor almejado; desses, quatro não conseguiram quase nada.

Estamos falando de uma campanha patrocinada por uma fundação reconhecida, com o apoio de um banco de investimentos forte, site muito bem feito e noticiada pela grande imprensa eletrônica. Ademais, ao menos um dos garotos apareceu em um dos maiores jornais impressos do País. Logo, não seria razoável atribuir o baixo nível de doações à falta de divulgação. Pensei, então, que o fetiche automotivo de uns poucos poderia elucidar o caso.

Destarte, fiz uma rápida busca na Internet. Deparei-me com a informação de que a Ferrari vendeu oito automóveis no Brasil, em maio último, a um preço total 12,8 milhões de reais. Em janeiro, a Lamborghini e a Rolls Royce venderam uma unidade cada, ao preço somado de 5,3 milhões. Portanto, apenas nesses dois meses, e descontando as outras marcas “exclusivas”, os ricaços brasileiros pagaram aproximadamente 18 milhões de reais por carros novos. Sobre essa cifra acumulam-se as taxas de licenciamento, seguro, revisões e a elevadíssima depreciação contábil – valor que deixaremos de lado; algo em torno de 5 milhões de reais no primeiro ano de posse. Se houve financiamento, há que considerar os custos financeiros, que também esqueceremos.

18 milhões de reais pagos por dez carros fantásticos. Ora, suponhamos que cada um dos seus felizes proprietários se contentasse com pouco. Por exemplo, um Mercedes Benz 63 AMG V8 bi-turbo, o topo de linha da cobiçada Série S, a “joia da coroa” dessa marca de elite. Um carro com tudo o que se pode sonhar em termos de conforto, desempenho, segurança e tecnologia. Tudo. Por 670 mil a unidade, os compradores teriam gasto 6,7 milhões de reais e sobrariam 11,3 milhões, para investir (quem sabe?) na educação de jovens talentosos. Se os quatorze rapazes e moças da campanha buscam 650 mil reais, 11,3 milhões ajudariam duzentos e quarenta e três estudantes em situação análoga: querendo mudar o mundo, pedindo a chance de estudar em grandes universidades internacionais.

De um lado, o fetiche dos grandes carros, que os labirintos do tempo e os acidentes da vida consumirão… Do outro, a educação que transforma vidas e decifra os enigmas do tempo.

Uma vida feita de escolhas, onde amanhã se colhe o que hoje se planta.

Uma ideia sobre “Ferraris, Lamborghinis e Migalhas Educacionais

  1. Gustavo Bastos

    Ainda há outra questão premente que é o preço artificial desses carros, bem mais caros que o seu custo de produção, somente por terem um cavalinho rampante em seu capô.
    Obviamente o seu exemplo foi uma ilustração, mas podemos ir além: há pessoas que compram bolsas de cinco mil reais (lembrando que bolsas são basicamente a pele de um animal), enquanto há famílias que passam um mês com pouco mais de um décimo desse valor.
    É triste que as prioridades estejam invertidas. A educação tem menos valor não só do que a propriedade como também do que o talento em dominar uma bola com os pés, vide um comentário já famoso do Facebook, em que alguém diz “no dia em que um professor meter dois no oliver kahn numa final de copa, eu me preocupo com a educação”.
    O mundo seria melhor se tivéssemos um raciocínio análogo ao de Oskar Schindler em relação a pessoas e bens.

    Resposta

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