Genocídio Popular

Nas cidades brasileiras, pequenas, médias e grandes, a praga das motocicletas se alastra sem controle, sem freios e sem fiscalização. Sobre duas rodas, os jovens, ou não tão jovens, desconsideram as leis de trânsito e inventam suas próprias leis. São rápidos e audaciosos, alguns incrivelmente hábeis – e quase todos, extremamente irresponsáveis. Entregadores e moto-taxistas, estudantes e lavradores, autônomos e biscateiros, bandoleiros e agentes do tráfico: desprezando a si mesmos, atormentam pedestres e motoristas, dia após dia, sem dó nem descanso.
Morrem aos montes, os motoqueiros, com ou sem capacete, com ou sem habilitação. Mas também sobrevivem às tragédias, inválidos, aleijados e dementes. Acabam com a vida espatifados no chão, sob ônibus e caminhões, nos postes e para-brisas, nos barrancos, parapeitos e guardrails.
A moto, dentre tantos outros, é um anestésico da luta de classes: para os pobres e deserdados (em prestações infinitas a juros obscenos) um objeto de desejo, símbolo de status e meio de vida precário, gerador de rendimentos parcos e incertos. Para os bancos, um grande negócio. Para as fábricas, um alento ante as crises sucessivas. Para o governo, uma ótima fonte de impostos e mais um disfarce conveniente para as estatísticas de emprego e renda.
Os jovens da periferia que trabalham com moto, sob risco iminente e ao desamparo da lei, ainda assim não estão desempregados. Quando se acidentam, as famílias choram a dor das sequelas – e as empresas, de imediato, contratam novos aventureiros. O telefone chama sem pausa, os clientes têm pressa e as entregas não param. As buzinas estridentes, enlouquecidas, falam mais alto. De Porto Alegre a Uiramutá, de Mâncio Lima a João Pessoa, a praga das motos acelera o genocídio popular.

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