Política Econômica Prisional

Manchete no site da CNN, referindo-se a uma pesquisa da Universidade de Michigan: “Um número ‘chocante’ de lares estadunidenses depende de ocupações de baixa remuneração como principal, ou única fonte de renda”. Para um contingente de 21 milhões de trabalhadores, os empregos mal-remunerados não apenas complementam a renda familiar, mas são o único meio de sustento (http://money.cnn.com/2014/02/06/news/economy/low-wage-breadwinner/index.html?hpt=hp_t2).

A renda real dos trabalhadores não sobe há anos, e a massa salarial está hoje no seu menor nível frente ao PIB, desde 1947. Isso significa que a remuneração dos assalariados não acompanha o crescimento da economia, nem tampouco os ganhos de produtividade.

Ainda no campo do trabalho, o congresso dos EUA suspendeu a ajuda financeira (uma espécie de bolsa-família) para os desempregados por longos períodos. Com isso, 1.300.000 cidadãos deixaram de receber o benefício desde o final de dezembro. Muitos, ao que parece, desistiram de procurar emprego no mercado formal. Para sobreviver, farão bicos, dependerão de terceiros ou praticarão delitos.

A propósito, as estatísticas do próprio governo mostram que quase 1% dos adultos estão presos, nos Estados Unidos. Entre 1980 e 2010, a população do país cresceu 36%, mas a população carcerária multiplicou-se por 4,5 (ou seja, aumentou 350%). Logo, em 30 anos, o número relativo de detentos saltou de 221 para 735 em cada 100 000 habitantes. No mesmo período, as desigualdades sociais nos EUA se aprofundaram sobremaneira, com os mais ricos apropriando-se de uma parcela cada vez maior da renda nacional. Tudo isso tendo como pano de fundo as reformas econômicas neoliberais iniciadas pelo ator-presidente, Ronald Reagan, e consolidadas desde então.

Os Estados Unidos são um grande país, com um povo trabalhador, notável produção científica, tecnologia pujante e forte tradição empreendedora. Não obstante, nas últimas décadas, têm se tornado um Estado policial, onde os excluídos do capitalismo turbinado são presos, para que não desestabilizem a ordem econômica. Com isso, os EUA atingiram um índice de encarceramento sete vezes superior ao da Europa e do Canadá – onde os níveis de criminalidade são menores.

É incrível que no país mais rico do mundo, com 20% da produção e 25% do consumo globais, haja 2.200.000 “vidas desperdiçadas” nas cadeias e prisões, para usar um termo do sociólogo Zygmunt Bauman. Circunstância fortuita? Não. Efeito colateral do american way of life, que outros países – inclusive o Brasil – invejam e pretendem imitar.

Se tudo der certo, precisaremos de mais celas.

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