País bom de Bola?

(Nota preliminar: corro em publicar esse texto, ainda em construção, pois não quero que a sua leitura seja influenciada pelo jogo Brasil x Camarões dessa segunda, 23 de junho: o resultado dessa partida, já colocada sob suspeita pela própria FIFA, não muda nada.)

Outro dia, um apresentador de telejornal noticiou que o técnico Felipão, insatisfeito com o baixo aproveitamento da seleção brasileira nas duas primeiras partidas da copa, colocou os atacantes para treinarem as finalizações (ou seja, os chutes e cabeçadas rumo à meta). Espantoso.

Entendo pouco (quase nada) de futebol, mas sempre pensei que as tais “finalizações” fossem um dos fundamentos do jogo e que, além disso, qualquer atleta convocado para o time pentacampão do mundo dominasse os fundamentos da sua profissão. Parece, contudo, que me enganei.

Se, no início de uma Copa do Mundo, os atacantes precisam reaprender como fazer gols, das duas uma: ou o Brasil não tem mais atacantes capazes (no que custo a acreditar) ou o técnico convocou os jogadores errados. Arriscando um palpite de leigo, a que todo brasileiro tem direito, acho que não só convocou os homens errados como não soube implantar um esquema tático, de forma que as oportunidades de gol não aparecem. Ou seja, como o trabalho de conjunto é deficiente, quase nulo, a bola não chega aos atacantes em condições de arremate.

Mas talvez eu esteja errado e Felipão esteja certo: afinal, ele ganha uma fortuna para estar certo sobre futebol, e eu não. E talvez eu também esteja errado ao pensar que a incompetência da seleção atual reflete muito do nosso traço de povo improvisador, que faz as coisas de qualquer jeito, negligencia os detalhes, despreza o planejamento, coloca o clientelismo acima do mérito, trabalha sem esmero, sobrepõe o individualismo ao espírito de equipe e vai tocando o barco, crente de que no fim tudo dá certo, porque, afinal, Deus é brasileiro e nós somos mais criativos que o os outros, mais apaixonados, mais artísticos, embora, também, um tanto imediatistas, inconsequentes e desorganizados.

Pode ser que o Brasil ganhe a Copa. Pode ser que o time melhore, que os atacantes aprendam em poucos dias a fazer os gols que são (ou deveriam ser) a essência do seu ofício. Pode ser que os juízes que vêm pela frente deem aos brasileiros uma mãozinha, ou uma mãozona, como nos deu aquele juiz do jogo contra a Croácia, e que continuem a atrapalhar os adversários, como atrapalharam o México, na sua estreia. Pode ser… Se tudo der certo, será mérito da torcida que apoiou, do técnico que acertou o time, dos jogadores que se superaram e até mesmo da CBF que promoveu a coisa toda. Nunca, é claro, mérito de alguma armação da cartolagem mundial.

Se o Brasil erguer a taça, haverá festa, congratulações, euforia. Senão, é porque não estava escrito, futebol é assim mesmo, uma caixinha de surpresas, cada jogo é um jogo, todo mundo se esforçou, o professor fez um bom trabalho, cada um deu o melhor de si, mas ainda assim, não deu… Ganhando ou perdendo, não haverá responsáveis pelas falhas, não haverá análise retrospectiva dos erros e acertos, escolhas e omissões, nem tampouco avaliação dos processos, métodos e formas de conduta da comissão técnica, dirigentes e atletas. Certo, se a desclassificação vier precocemente, a imprensa local falará sobre o assunto duas ou três semanas, mas logo logo esqueceremos tudo, até a próxima competição.

No futebol, tal qual na vida do País.

Bom, esse texto deveria terminar na frase anterior. Porém, acabo de ver uma notícia que, de certa forma, o justifica: no novo Estádio das Dunas, em Natal (sim, Estádio, porque resisto bravamente a esse modismo bobo de “arena”), pois bem, no Estádio de Natal, um cano estourou e encharcou a área de imprensa, com o piso todo em carpete. Por sorte, a água jorrou longe de papeis e equipamentos, mas pela foto que vi na Internet, foi água que daria para banhar mil torcedores no gracioso calor do inverno potiguar.

Que os estádios da Copa estão inacabados, e provavelmente assim permanecerão, nós já sabíamos. Esse vazamento apenas retrata o açodamento, o descaso e a incompetência com que foram feitos. Agora, com os jornalistas estrangeiros molhados, é um tanto mais difícil para os governantes cobrarem do povo uma imagem favorável do Brasil no exterior, quando eles próprios e seus sócios empreiteiros se encarregam de manchá-la.

Voltando ao fim do texto: no futebol, como na vida nacional.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s