Loteria às Avessas

A AIDS é a mais mortífera e notória doença sexualmente transmissível (DST). Mas, obviamente, não é a única. A Organização Mundial da Saúde, (OMS), citada pelo Ministério da Saúde (http://goo.gl/BT11l7), estima os seguintes números de infecções por contato sexual, apenas no Brasil: sífilis, 937.000 casos por ano; gonorreia, 1.542.000; herpes genital, 641.000; HPV, 685.000; clamídia, 1.967.000. E nessa conta não entram doenças graves como a tuberculose e a hanseníase que, não sendo catalogadas como DSTs, podem ser contraídas por meio da intimidade física com pessoas contaminadas (a respeito da hanseníase, ver http://goo.gl/f74K23).

Vale ressaltar que as infecções, em geral, e as DSTs, em particular, são frequentemente cumulativas: a infecção primária enfraquece o sistema imunológico, abrindo caminho para uma ou mais infecções secundárias.

Há pouco tempo, era crença popular que a sífilis a a gonorreia haviam se tornado quase inofensivas, porque poderiam ser facilmente tratadas. Porém, tal como ocorre com qualquer doença bacteriana, os patógenos respectivos tendem a se tornar resistentes aos antibióticos, de forma que, hoje em dia, a cura rápida e sem sequelas da sífilis ou da gonorreia nem sempre é garantida. Em pleno Século XXI, a sífilis eventualmente mata, mas também causa cegueira, distúrbios neurológicos, aneurisma de aorta e danos às válvulas cardíacas.

O HPV (papilomavírus humano), é causa principal do câncer de colo de útero, que no Brasil, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), mata mais de 5 mil mulheres por ano. A propósito, outros fatores de risco para esse tipo de câncer são “o início precoce da atividade sexual; multiplicidade de parceiros sexuais; higiene íntima inadequada; uso prolongado de contraceptivos orais e tabagismo” (http://goo.gl/QkYhcw; http://goo.gl/BGwL0w).

O herpes, além de bastante dolorido, é vexatório, pois nos períodos agudos gera feridas horríveis nos órgãos genitais, e às vezes também na região da boca, olhos e nariz. É uma doença incurável, com prováveis recidivas periódicas em todos os portadores, e perigosíssima em pacientes imunodeprimidos, tais como os portadores do HIV. Quando transmitido da mãe para o feto, o herpes pode ser fatal.

A clamídia pode provocar, entre outras complicações, infertilidade feminina, nascimentos prematuros e gestação ectópica (desenvolvimento do feto fora da útero).

Lamentavelmente, as campanhas de prevenção das DSTs costumam enfatizar apenas o uso do preservativo, como se isso fosse o bastante, mas não é. Provavelmente, por medo de parecer “moralistas”, os responsáveis por tais campanhas se omitem ao não dizer que a multiplicidade de parceiros, com ou sem preservativo, é um dos principais fatores de contágio.

Assistimos, aqui, a uma curiosa inversão. Como as ações do Estado – supostamente laico – não podem ser conduzidas em nome de uma moral do pecado, acaba sendo um pecado falar de moral. Porém, mesmo que não tenhamos consciência disso, todas as nossas ações têm um fundo moral, tanto no que tange ao sexo quanto no que se refere aos demais aspectos da vida (para muita gente a vida se resume ao sexo, mas esse é outro problema). O risco sanitário associado aos parceiros múltiplos, contudo, antes de ser uma questão moral, é uma questão estatística. Por isso, as campanhas de prevenção das DSTs deveriam enfatizar que fazer sexo indiscriminadamente é uma verdadeira loteria às avessas. Eu explico.

Quem joga em qualquer loteria sabe que, muito provavelmente (quase com certeza), perderá o pouco dinheiro da aposta. Em troca, tem uma pequeníssima chance de ganhar muito dinheiro. No caso da Mega-Sena, com um jogo simples o apostador compra, por R$ 2,50, uma chance em 50.063.860 de acertar as seis dezenas e ficar milionário de repente. Jogos com mais de seis dezenas, ou vários jogos sobrepostos, criados por computador, aumentam as chances de ganhar, mas o preço das apostas cresce proporcionalmente.

No sexo, ocorre mais ou menos o inverso. Com a multiplicidade de parceiros, o investimento afetivo e os cuidados com o outro diminuem (o valor da aposta cai), porque, afinal, são se investe nem se cuida de alguém que é apenas um instrumento de prazer momentâneo. Por outro lado, na medida em que o número de parceiros aumenta, o risco de contrair uma DST cresce substancialmente… Façamos as contas, com números meramente hipotéticos: apenas um exercício de lógica, sem qualquer pretensão epidemiológica.

Suponha que a possibilidade de contrair uma DST (ou outras doenças) seja de 1%, em um relacionamento qualquer, com uma pessoa tomada ao acaso na população. Se você faz sexo com uma pessoa só, tem 1% de chance de ficar doente. Agora, imagine que, no mesmo período, você se relaciona com 10 pessoas, igualmente sem informações confiáveis sobre a saúde delas. Nesse caso, a chance de não ficar doente é de (0,99)10 = 90,4%. Ou seja, probabilidade de você contrair uma doença sobe para 9,6%, o que não é nada desprezível. Seguindo o mesmo raciocínio, ao fazer sexo com 20 pessoas, as chances de contágio sobem para 18,2% e, com 50 pessoas, chegam a 39,5%.

Essa é a ideia geral, sem complicadores metodológicos. Contudo, cabe considerar que, dependendo da população de onde vêm os parceiros e dos cuidados de higiene adotados (ou desprezados), a chance de contágio em cada parceria pode ser bem maior o que 1%. Se for de 2% com um parceiro (em lugar de 1%), será de 9,6% com cinco, 18,3% com 10, 33,2% com 20 e 63,6% com 50 parceiros distintos.

Claro, quem forma um par duradouro, efetivamente monogâmico, tem chance zero de contaminar e ser contaminado, o que é muito bom, tanto na vida privada quanto do ponto de vista da saúde pública.

Em suma, considerando os números, a lógica e o fato de que o preservativo reduz, mas não elimina o contato com os fluidos corpóreos do parceiro ou parceira sexual, vale a pena tomar cuidado com os cassinos do sexo, onde todos os jogos são permitidos.

Como diriam os crupiês dos filmes americanos:

– Façam as suas apostas.

2 ideias sobre “Loteria às Avessas

  1. Vanessa Santana

    Os mais evoluídos espiritualmente (ou mesmo os menos inconsequentes) ainda conseguem visualizar, à frente do prazer momentâneo, os riscos de estar com quem não se conhece o suficientemente bem e confiar.
    Como estes são minorias, continuaremos a assistir ao desenfreado problema de saúde publica assolando a humanidade.

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    1. Cláudio Amorim Autor do post

      O prazer em estado bruto é um anestésico precário para a falta de amor. Aprendendo a amar, o ser humano se alegra nos prazeres sutis, que engendram saúde e paz. Enquanto isso não ocorre, a dor é o freio.

      Resposta

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