O Estrago é Anterior

Dia desses, durante a aula de “computadores e sociedade”, derivávamos por assuntos diversos, como frequentemente ocorre… Foi aí que uma estudante me perguntou:

– Professor, então você não acha que as drogas estão acabando com a sociedade?

– Não. – respondi de imediato – Ao contrário, acho que o amplo abuso das drogas, e o tráfico daí decorrente, só se instalam em uma sociedade já bastante estragada. O estrago vem antes, a avalanche das drogas, depois.

Ante a surpresa da turma, prossegui:

– O amplo e indiscriminado uso das drogas, lícitas ou ilícitas, com ou sem prescrição, é muito mais um sintoma, tal como uma febre: não podemos, de jeito nenhum, confundir o sintoma com a doença, propriamente dita. Se eu tiver pneumonia, tuberculose ou outra infecção grave, e tomar remédio só para baixar a febre, a infecção prosseguirá e talvez me leve à morte. Ou seja, combater as drogas, como um problema em si mesmas, é como combater uma febre sem tratar a condição patológica que a determina.

– Mas, professor, a droga mata, causa violência, destrói famílias…

– Certamente. A febre, se subir demais, também causa convulsões e às vezes mata. Mas em um corpo são isso não acontece. Só em um corpo bastante doente, fragilizado. Com isso, quero dizer que precisamos, sim, prevenir o abuso das drogas e tratar os dependentes, para que não se tornem delinquentes e morram a morte rápida da overdose, ou a morte lenta das sequelas físicas e psíquicas. Embora algo antiquada, a analogia entre sociedade e corpo nos serve, nesse contexto: o corpo social, doente, apresenta sintomas diversos, dentre os quais o abuso das drogas, que a mídia alardeia para escamotear outros temas. Temos de conversar mais sobre as doenças que afligem a sociedade, não apenas sobre o sintomas.

Ato contínuo, olhos nos olhos da estudante que colocou a questão em pauta (vamos chamá-la de Lina), desafiei:

– Lina, o crack ou a cocaína têm espaço na sua vida?

– Não, de jeito nenhum – respondeu rápido, balançando a cabeça.

– Por quê? – insisti – Por que o abuso das drogas não tem lugar na sua vida?

Silêncio total.

– É sobre isso que precisamos pensar, antes de mais nada. Por que as drogas se destacam na vida de algumas pessoas, mas não tem espaço na vida de tantas outras?

Acho que eu mesmo nunca tinha raciocinado nesses termos. Os estudantes também não. De improviso, arrisquei mais algumas considerações:

– Lina, as drogas não encontraram você porque, antes disso, você encontrou sem elas um mundo suficientemente bom. Um mundo com afeto, solidariedade, alegria e disciplina. Integrou-se, com razoável harmonia, a estruturas sociais acolhedoras, embora imperfeitas: um lar, a escola, a universidade, a organização onde você trabalha e, talvez, uma instituição religiosa onde compartilha a sua fé. Por isso, creio, o abuso das drogas nunca foi uma questão para você. Poderia ter sido, é verdade. Pode ser, ainda, para qualquer um de nós, se algum acidente de percurso nos privar das pessoas, estruturas, atividades e valores que dão sentido à vida, conforme a perspectiva de cada um. Ou seja, se pensarmos que estamos irremediavelmente perdidos – ainda que, de fato, nunca estejamos…

As reflexões eram instigantes, mas a aula não era sobre as drogas e o horário avançava. Por isso, demo-nos por satisfeitos, provisoriamente, e retornamos aos tópicos curriculares do dia.

(Dedico esses pensamentos incipientes ao querido colega, amigo e mestre Prof. Dr. Antônio Nery Filho, com quem aprendemos a considerar mais as pessoas do que as substâncias que elas consomem.)

2 ideias sobre “O Estrago é Anterior

  1. Rebeca Maynart

    Essa analogia serve para tantas coisas. Como a redução da maioridade penal, aparentemente combatemos um sintoma, mas a doença está intrínseca em muitas outras áreas. Excelente texto e ótima abordagem, professor!

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  2. Ygor Uzêda.

    Excelente abordagem! Se tornou um hábito social, em relação a qualquer temática, dar ênfase aos sintomas sem que tenhamos refletido sobre suas causas, diretas e indiretas. Assim, raros são os que buscam uma visão holística, uma reflexão global sobre os problemas. O normal é observarmos tudo na ótica, muitas vezes, limitada, do senso comum.

    Resposta

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