O Remédio Laranja

Há tempo escrevi aqui no Blog sobre a violência contra a mulher, lembrando Lima Barreto, um grande cronista dos fracos e oprimidos, que há mais de um século conclamava: “Não as matem, pelo amor de Deus!”. Hoje volto ao assunto, ainda inquieto pela quantidade de feminicídios que não param de frequentar a tela da televisão e as páginas dos jornais. Mas vamos ao que mais importa. Conscientizemo-nos do problema e mobilizemo-nos.

Por iniciativa do Secretário-Geral, Ban Ki-moon, a ONU declarou 25 de novembro o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres (http://www.un.org/en/events/endviolenceday/). Para marcar os 16 dias de ativismo, até 10 de dezembro, importantes ícones arquitetônicos e paisagísticos em redor do mundo serão iluminados na cor laranja. No Brasil, o Palácio do Planalto já recebeu as luzes alaranjadas, no último dia 19 (http://www.onumulheres.org.br/noticias/palacio-do-planalto-ganha-iluminacao-alusiva-a-campanha-pelo-fim-da-violencia-contra-a-mulher/).

A violência contra a mulher é um fenômeno arcaico, cujas raízes culturais precisam ser extirpadas em definitivo. Atinge países pobres e ricos, Estados laicos e religiosos, choupanas, barracos, apartamentos de classe média e mansões de luxo.

Forma de violência tanto mais cruel porque rotineira, banal e dissimulada. Na hora de espancar, estuprar e matar, em geral o homem abusa da força física superior. Na hora de se defender e buscar reparação, a mulher se depara com instituições fracas, agentes públicos cínicos, escárnio, como se fosse ela, a vítima, quem merecesse vergonha pela agressão sofrida.

Nesses dias em que se discute um pretenso (ilusório e mentiroso) choque de civilizações, seria cômodo crer que a “civilização ocidental” (essa bobagem midiática), eurocêntrica, democrática e liberal, é imune à violência contra a mulher, que estaria associada a países institucionalmente atrasados, machistas, ou aqueloutros dominados por fanáticos religiosos. Balela.

Primeiramente, os países ocidentais não dão a mínima para os direitos humanos – direitos da mulher incluídos – quando se trata de defender os seus interesses geopolíticos e os lucros das suas empresas. A Arábia Saudita, um dos países mais opressores do mundo, tem nos EUA, na Grã-Bretanha e na França três aliados incondicionais. No entanto, lá são frequentes os casos de trabalhadoras estrangeiras agredidas brutalmente, até a mutilação ou mesmo a morte, sem que a “civilização ocidental” se incomode muito com isso.

Em segundo lugar, nos países de capitalismo avançado, esses que se  autoproclamam “civilizados”, o espancamento, o estupro e o feminicídio são também dolorosamente corriqueiros. Aí, como em toda parte, frequentemente, os homens agressores seguem impunes, em especial quando são capazes de manipular os trâmites legais, por meio do dinheiro e do poder político. Aí, como em toda parte, as mulheres frequentemente não denunciam, porque têm vergonha, porque têm medo, porque são dependentes, porque são coagidas, porque têm que zelar pelos filhos, porque são socialmente desrespeitadas, porque estão cansadas de denunciar e não dar em nada, porque a lei não funciona…

Está em curso, no Brasil, uma situação emblemática: um secretário municipal da cidade do Rio de Janeiro, preferido do prefeito para sucedê-lo, espancou a ex-esposa, conforme consta nos autos policiais. Bateu com força, a ponto de arrancar um dente da mulher. Foi preso? Não. Humilhou-se publicamente? Não. Viu ruírem os seus planos? Não, não e não! Ao contrário, o prefeito atual apressou-se em dizer que o assunto é “uma briga de casal”, enquanto os demais correligionários fizeram para o agressor uma sessão pública de desagravo, com direito a abraços e sorrisos. Resta ver, agora, como se comportarão os meios de comunicação, e se as eleitoras e eleitores se lembrarão do caso quando forem votar, no ano que vem. E se, em se lembrando, votarão no covarde.

Estejamos atentos e ouçamos o cronista querido, de novo. A violência contra a mulher prejudica mulheres e homens. É um entrave econômico enorme e um dos piores problemas de saúde pública. É nódoa moral, que nos desmerece a todos como seres humanos. Pensando como materialista, a violência contra mulher é um corolário bem ridículo para bilhões de anos de evolução. Pensando como crente, a violência contra a mulher nos desqualifica como criaturas de Deus. Pensando como homem, pai, educador e esposo, a violência contra a mulher me dá náuseas.

Laranja, no caso, é um santo remédio.

 

 

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