A Vida de Betinho, em 279 Palavras

Betinho é um jovem baiano de classe média alta. Como tantos outros jovens baianos, Betinho gosta do Carnaval.

O Carnaval começava sábado, depois, sexta, mas hoje começa bem antes.

Na quinta de Carnaval, Betinho pulou, pulou, pulou. Bebeu. Beijou, Beijou, Beijou.

Na sexta, Betinho pulou, pulou, pulou. Beijou e bebeu, bebeu e beijou. Betinho transou com Silvinha, menina linda que ele não conhecia e talvez não volte a ver.

No sábado, Betinho beijou mais ainda, e mais bebeu. Transou com Mila, com quem já tinha ficado, mas que agora está ficando com Marcelinho.

No domingo – ufa! – Betinho bebeu e pulou, pulou, bebeu, bebeu e bebeu. Bebum, Betinho transou com… bom, ele não lembra o nome, mas era gostosa demais. Acha que era uma menina da escola, mas talvez não fosse. Mas acha que era menina.

Na segunda, Betinho bebeu mais um pouco, e mais pulou, pulou e pulou. Chegou junto de Mirinha, que foi namorada de Fábio, que agora está ficando com Daniela. Mas não rolou com Mirinha: na segunda, Betinho não transou.

Na terça, Betinho bebeu, pulou, beijou, bebeu, beijou e pulou. Tomou uma pílula azul. Transou, transou, transou, a essa altura, pouco importa com quem. Mas acha que eram meninas.

Na quarta, como um deus soberano, Betinho descansou sob o olhar orgulhoso dos pais, em seu ap de frente pro mar.

Na quinta, Betinho voltou às aulas, cheio de Carnaval em todos os poros.

Betinho ainda vai a muitas festas, em março, abril e maio… e depois, o São João.

Depois das festas da primavera e do verão, no ano que vem tem mais Carnaval. Nos intervalos, Betinho vai à academia.

A vida de Betinho é emocionante.

5 ideias sobre “A Vida de Betinho, em 279 Palavras

  1. oskriri

    Me peguei lembrando que eu e meus amigos (ainda adolescentes) ficávamos intrigados imaginando como muita gente se encaixava nesses ciclos e como pra algumas dessas pessoas essa era a força motriz de suas vidas. Trabalhar, para aqueles que não tinham os pais pra bancar, era só para ter dinheiro e pagar as festas e os custos desse estilo de vida. Na manhã seguinte ao final de uma festa todo o papo girava em torno de levantar as estatísticas (quantas beijou, com quantas ficou, quanto bebeu) e planejar qual seria a próxima farra.

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  2. Cláudio Amorim Autor do post

    Oscar,
    Assim cresce a indústria cultural, tirando de um lado o que as pessoas recebem do outro, sob a forma de minguados rendimentos. Na Bahia, evidentemente, essa forma de exploração se agrava.

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  3. Rebeca Maynart

    Professor querido (e digo isso sem nenhum pingo de ironia atribuído ao adjetivo),
    Primeiramente, sob alguns questionamentos filosóficos, eventualmente, pego-me pensando o quão interessante seria debatê-los com o senhor. A admiração é uma coisa que se conquista e sabes que a possui (não que tenha perguntado, só achei que valia a menção).
    “Segundamente”, diante deste texto, lembro-me de algumas histórias que contava em classe e reflexões que plantava para nós pupilos e reverberavam nas nossas vidas, ao menos nos meus pensamentos, por muito mais do que possa mensurar. Minha psicóloga costumava dizer que os resultados das nossas sessões não seriam imediatos, pois estávamos plantando sementes que mais tarde dariam seus frutos. Acredito que assim foram suas aulas para mim.
    Imediatamente após a leitura, lembrei de um minitexto que escrevi um final de semana depois de uma lição sua sobre exatamente o que aborda “A Vida de Bentinho em 279 Palavras”, a insaciabilidade por momentos vazios e vou compartilhá-lo com você:

    “9 de maio de 2017
    Algo mudou, eu não me enxergo mais nas mesmas linhas tortas que sempre me tracei. Em algum momento da noite, o copo de cerveja na mão e um monte de gente desconhecida falando alto, questionei se tinha me levado até ali ou se deixei-me ser levada. Culpa do meu professor de Filosofia, é claro. Viciou-me em indagar. Em perceber que talvez eu não tenha que estar no limite de tudo, que tudo bem ficar em casa um sábado a noite e recusar a famigerada noitada com os amigos.

    Talvez eu já não me contente mais em preencher minhas lacunas com sensações superficiais e risos desesperados, no fim da farra eu sempre acabo mesmo perguntando-me o que estou fazendo ali. Porque, numa hora dessas, o corpo suplica algo real, a alma implora pela genuinidade dos nossos desejos, e aí, já não me basta mais o que é vazio.

    [rebeca maynart]”

    Não sei se vai chegar a ler o que deixo aqui, mas,
    Obrigada.

    Resposta

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