O IPVA da Ferrari e a Fuga das Galinhas

NOTA: O texto a seguir dormiu mais de três anos nos meus arquivos. Publico-o, sem alterar a menção a datas e valores, pois o sentido se preserva.

No estado de São Paulo, o proprietário de uma Ferrari F12 Beretta, avaliada em cerca de 2,5 milhões, vai pagar em 2014 o IPVA mais caro do estado: 101 mil reais. Isto é, dinheiro que compra um excelente carro, e com o qual muita gente realizaria o sonho da casa própria. O assunto, que rendeu algum destaque nas páginas da Internet, desencadeou reações contraditórias. Alguns internautas disseram que é assim mesmo, quem pode paga e não se fala mais nisso. Vários, porém, reagiram de outro modo. Um criticou a soma elevada, dizendo que nesse País pseudo-socialista a gente tem que ficar dando dinheiro ao governo e coisa e tal. Outro disse que o cidadão trabalha muito e depois fica pagando esses impostos abusivos para ter um bem, fruto do seu esforço. Outro, ainda, escreveu que o proprietário de um carro assim não deveria morar em um “lixo” chamado Brasil… E prosseguem os comentários, ofensivos ao governo, ao País, à nossa identidade como povo.

O IPVA dessa Ferrari não é um caso isolado, pois há, pelo Brasil afora, dezenas de carros caríssimos, cujo IPVA supera 50 mil reais. Portanto, são dezenas de milhões de reais imobilizados em símbolos de poder sobre quatro rodas, máquinas fora de série feitas para inflar o ego, satisfazer os caprichos, alimentar a vaidade de uns poucos. O que nos leva a uma reflexão ético-econômica, nesse mundo da economia sem ética.

O patrimônio privado avantajado, ainda quando amealhado por meios lícitos, é fruto do espírito empreendedor, criatividade, esforço, dedicação e, possivelmente, graves renúncias no campo afetivo. Porém – e esse é um enorme porém – uma pessoa, em particular, jamais ganha muito dinheiro sozinha, mas sempre por intermédio do trabalho de tantas outras pessoas, também laboriosas, dedicadas, talentosas e amiúde, exploradas. Ou seja, toda riqueza é riqueza socialmente produzida. Logo, quando alguém fatura o bastante para comprar e manter um carro de 2,5 milhões de reais, geralmente está em dívida com dezenas, centenas, talvez milhares de cooperadores, diretos ou indiretos, anônimos ou conhecidos, lembrados ou esquecidos.

Em um País como o Brasil, a posse de um carro assim significa, também, expressivo envio de divisas ao exterior, em detrimento da economia local. Paradoxalmente, a bronca mais comum dos brasileiros ricos – e dos ricos do mundo todo – é com a carga tributária. Surpreende, portanto, que o raciocínio não se sustente na hora em que compram objetos exuberantes, emblemas do super-supérfluo, aos quais se aplicam (com justiça) impostos altíssimos. Se a razão vencesse a paixão, concluiriam que os milhões despejados em supercarros cairiam bem melhor no investimento gerador de emprego, renda e conhecimento – de quebra, contribuindo para reduzir a violência que nos maltrata.

Como regra, os ricaços brasileiros conquistaram o que têm graças ao trabalho duro do povo, à natureza generosa e ao grande mercado interno do País. Se, em lugar de reinvestir, preferem esbanjar dinheiro com o luxo extremo, que paguem impostos extremos. Se os impostos não são aplicados como deveriam, a benefício público, isso não invalida a tese geral: quem tem regalias, que remunere a sociedade pelas regalias que ela lhes concedeu.

Em um memorável filme de animação stop motion, “A Fuga das Galinhas” (Chicken Run, ano 2000), as aves querem aprender a voar, de qualquer forma, para fugir da granja, quando descobrem que os proprietários deixarão de vender ovos para vender tortas de galinha. Na busca pela liberdade, dão lições de coragem, engenhosidade, solidariedade e persistência.

Devemos, talvez, perdoar a ignorância rude dos comentaristas que, ao defender agressivamente a ostentação ilimitada e irresponsável, desqualificam de uma só vez o governo, o País e o seu próprio povo. A exemplo das galinhas da fábula, eles também são vítimas do capital opressivo, que sustenta a ganância de poucos com base na exploração de muitos. Ao contrário das galinhas, porém, não buscam a liberdade, mas se entorpecem no consumismo, ludibriados por sonhos de grandeza e pelas promessas irrealizáveis do marketing. Melhor para os donos do galinheiro: afinal, quem precisa reprimir as galinhas, quando, sonâmbulas, elas caminham por si mesmas para o abatedouro?

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