A Banca Vencerá?

É chover no molhado dizer que o Brasil atravessa uma das maiores crises econômicas da sua história: o PIB cai, o desemprego, o subemprego e o trabalho precário crescem escandalosamente, lojas fecham, pequenos (ou não tão pequenos) empresários vão à falência. Os salários encolhem, milhares de servidores ativos e aposentados ficam sem rendimentos, ou com rendimentos atrasados, experimentando a humilhação – inédita para muitos – das contas atrasadas, das refeições minguadas e da falta de gás para cozinhar o pouco que resta na geladeira oca. Perto de mim, há mais de um jovem talentoso e dedicado que interrompeu os estudos universitários porque a família, de classe média, já não pode pagar as mensalidades. Não obstante, os bancos vão muito bem, segundo os mais recentes balanços trimestrais, livremente acessíveis nos sites de notícias econômicas. Vejamos.

Itaú Unibanco: lucro de R$ 6,18 bilhões; alta de 19,6% em relação ao primeiro trimestre de 2016.

Bradesco: lucro de R$ 4,07 bi, ou R$ 4,64 bi, quando descontada a aquisição do HSBC no Brasil; alta de 13,0%.

Santander: R$ 2,28 bi; alta de 37,3%.

Há nisso tudo filigranas contábeis cujos detalhes me escapam, porque não sou especialista em finanças. O que não me escapa é o espanto de ver os bancos (e por conseguinte, seus acionistas) ganharem tanto, ao passo em que a sociedade tanto tem perdido. Certo, os bancos brasileiros são notáveis pelos seus processos eficientes, tecnologia avançada e gestão prudente dos ativos (embora também conhecidos pelas demissões em massa, assédio moral aos trabalhadores, tarifas infladas, juros escorchantes, desrespeito aos clientes e artimanhas para evadir tributos e encargos devidos por lei). Cabe perguntar até quando conseguirão operar na contracorrente, arrancando riqueza de onde riqueza não há, ou melhor, apropriando-se da riqueza que há, mas que escapa às mãos e mentes que realmente trabalham para produzir valor.

Na terra arrasada da “austeridade”, são necessárias cada vez mais audácia, desfaçatez e violência para tirar muito de quem já tem pouco. Esse não é um fenômeno propriamente nacional, embora tenha no Brasil as suas peculiaridades. Por exemplo, temos aqui a instituição execrável do crédito consignado, que permite aos bancos sequestrar as parcelas devidas diretamente dos benefícios de um aposentado ou pensionista, mesmo que isso lhe custe o sofrimento de não poder comprar comida e remédios. Mas, e quando a “austeridade” em curso sufocar de vez as aposentadorias e pensões? Secará uma das fontes de dinheiro fácil para os bancos. E quando ruírem o comércio e a indústria, por falta de consumidores com renda bastante para comprar? A quem os bancos emprestarão dinheiro? Prosseguirão, por algum tempo, lucrando com as operações de empréstimo ao governo – sempre tão generoso ao remunerar os rentistas, na mesma medida em que é parcimonioso ao investir em saúde e educação. Porém o dinheiro do governo vem dos impostos… Ora, o nosso povo não é lá muito letrado, mas é esperto: pobres e remediados logo perceberão que vale mais à pena manter-se na economia informal do que declarar bens e direitos para um governo que arrecada de quem tem menos para encher os cofres de quem tem mais. Tornado insolvente, mesmo arrancando o possível e o impossível do povo lutador, o governo não poderá honrar as benesses aos rentistas (clientes dos bancos), que buscarão, como de praxe, dinheiro fácil em outras terras.

Não há mágica, em economia. O que de fato existe, em última análise, é criação e distribuição de valor. O dinheiro, como representação abstrata de valor econômico, é volátil: desaparece quando não tem lastro na riqueza real. No fim das contas, é por isso isso que ocorrem os periódicos estouros de “bolhas”, a que a humanidade vem se acostumando, tristemente. Portanto, é provável que, em breve, os bancos brasileiros sintam os efeitos colaterais das crises e “reformas” que ajudaram a financiar, para atender aos interesses de curto prazo dos seus acionistas e clientes preferenciais. A criação de valor no País foi praticamente interrompida; cedo ou tarde, nem mesmo os bancos terão de onde tirar dinheiro. Ao contrário, vão ter que se virar para cobrir os rombos das empresas credoras e aquelas de que são sócios. Enquanto isso não acontece, vão divulgando balanços azuis e fingindo que nada acontecerá.

No fundo, os banqueiros brasileiros e os estrangeiros aqui estabelecidos talvez tenham razão em não se preocupar tanto. Tal como acontece no mundo todo, esperam ser socorridos pelo dinheiro público, quando seus bancos não puderem se manter por meios próprios – mesmo que à custa de graves conflitos sociais. No mercado oligopolizado, são também “too big to fail”, ou grandes demais para quebrar, como se diz por aí. Nesse ínterim, os não tão grandes continuarão quebrando e não serão socorridos. Não se trata de “seleção natural”, ou “sucesso dos mais aptos”: é simplesmente um jogo de cartas marcadas, em um cassino onde vence a banca, sempre.

Epílogo: o problema com todo jogo de cartas marcadas é que um dia os perdedores habituais descobrem as falcatruas e eventualmente reagem (nem sempre da forma mais pacífica e inteligente). Quando isso ocorre, os donos do cassino tentam subornar os líderes dos descontentes e controlar a turba na base da paulada. Essa tática às vezes funciona, por um tempo. Mas nem sempre.

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