O Imbróglio da Previdência – Parte 2

No post anterior sobre a previdência, destaquei a equação que não fecha: por um lado diz-se que é preciso aumentar o tempo de contribuição e a idade mínima da aposentadoria, para fazer face à queda de natalidade e ao aumento da expectativa de vida; por outro lado, o número de empregos gerados não atende às necessidades de quem precisa ou gostaria de trabalhar e se aposentar um dia. Leio, agora [1], que o Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum, ou WEF) repete, mais uma vez, o argumento de que os países (em particular os chamados países ricos) devem apertar as regras previdenciárias, sob pena de sofrerem os efeitos da “bomba-relógio” demográfica.

O WEF é uma confraria de oligarcas, notórios ou reclusos, em pessoa ou representados pelos tecnocratas e políticos às suas ordens, mundo afora. São, caracteristicamente, homens, quase todos brancos, que nunca se preocuparam com aposentadorias ou pensões, a ditar regras sobre como a economia mundial deveria funcionar para dar melhores resultados – melhores resultados para eles, claro, não necessariamente para o grosso da população. Movem-se pelo fetiche do “crescimento” ilimitado, leia-se acumulação sem freios, ainda que à custa da degradação socioambiental extrema. Só enxergam as necessidades humanas através dos números: são cegos àquilo que os números não podem dizer.

Ora, os oligarcas transnacionais são justamente os detentores do capital que engole os trabalhadores a cada dia, achatando salários, acabando com as carreiras estáveis, promovendo a oscilação dos rendimentos oriundos do trabalho e provocando doenças ocupacionais, tanto físicas como mentais – fatores que oneram os sistemas previdenciários pelo lado da receita e pelo lado das despesas. São também os patrocinadores da sociedades sem empregos, obcecados pelas tecnologias poupadouras de obra e pelas fusões empresariais que demitem em massa, enquanto concentram mais tarefas e responsabilidades sobre aqueles que continuam empregados.

Afirmam, agora, que a aposentadoria aos 70 anos, no mínimo, deveria se tornar regra até 2050, ou seja, nas próximas três décadas. Devo, então, insistir na questão posta anteriormente: onde as pessoas trabalharão até os 70 anos, com rendimentos suficientes e constantes, a fim de contribuir com a previdência e fazer jus à aposentadoria? E, insisto, não basta acenar com trabalho precário, incerto e parcamente remunerado. Se os conselheiros econômicos das elites pedem mais prolongadas contribuições previdenciárias, devem dizer de onde os trabalhadores tirarão os recursos necessários. Talvez, quem sabe, dos trilhões de dólares depositados em paraísos fiscais, ou do caixa assombroso das maiores empresas de tecnologia, que não investem e nem contratam, porque preferem pagar gordos dividendos aos acionistas milionários, em lugar de promover a atividade econômica socialmente relevante. Mas, se tais recursos forem mobilizados, talvez as pessoas não precisem trabalhar tantos anos, afinal, e possam se aposentar cedo, a fim de cultivar os valores existenciais que as planilhas não medem.

A questão previdenciária só poderá ser satisfatoriamente equacionada quando (1) deixarmos de ver o mundo de abastança do Século XXI como se fosse ainda o mundo de escassez do Século XVIII e (2) pensarmos no dinheiro como representação relativa de valor, até certo ponto ficcional, e não como medida absoluta de riqueza presente e futura. Pouco importa uma poupança pública ou privada nominal que não se materialize como efetivo valor de uso, no tempo certo. O que a geração presente precisa deixar às gerações futuras, em termos econômicos, são valores efetivos, sob a forma de serviços e produtos sustentáveis e propiciadores de bem estar, ganhos de produtividade e um patrimônio intelectual orientado a avanços científicos e tecnológicos permanentes. A representação contábil desses valores é logicamente secundária, ou seja, não é causa, mas efeito.

Hoje, na prática, os homens brancos das elites (digamos, os 0,01% mais ricos) garantem muito cedo a sua aposentadoria e a fortuna dos seus herdeiros, por meios lícitos ou ilícitos, frequentemente imorais. Ganham bônus injustificáveis, recebem salários inflados, vendem informações privilegiadas, enganam investidores tolos, subjugam trabalhadores desprotegidos, evadem impostos, emprestam a juros abusivos, especulam com o preço da comida, inflacionam a moradia, constróem monopólios, tramam cartéis. Aos 55 ou 60 anos, senão antes, já garantiram as benesses decorrentes do seu talento em ganhar dinheiro tirando dos outros, diretamente ou por meio do assalto aos cofres públicos. Em geral, continuam trabalhando para faturar, é certo, mas antes por vaidade e ganância do que por necessidade. Nessas circunstâncias, e fácil receitar austeridade com a aposentadoria alheia. Pimenta nos olhos dos outros, como diz o ditado.

Sejamos claros: hoje, interessa aos que estão no topo da pirâmide escolher os melhores dentre os melhores para ocupar os postos de trabalho que restam. Ora, quanto mais gente estiver obrigada a trabalhar até a morte, maior o número profissionais qualificados dispostos, ou melhor, forçados a aceitar condições aviltantes. No curto prazo, melhor para os lucros que abastecem os 0,01%. No longo prazo, contudo, a obsessão pelo trabalho remunerado, em um mundo sem empregos, tende a gerar transtornos sociais aos quais ninguém escapará. Pobres, ricos, remediados, até mesmo os ultra-ricos encastelados nas mansões, todos sofrerão, pois de nada valerá a riqueza monetária se o valor abstrato do dinheiro se diluir em uma sociedade disfuncional, radicalmente violenta, completamente fora de controle. No limite, nem rios de dinheiro poderão comprar segurança e sossego.

[1] Global retirement ‘timebomb’: Why you’ll have to work past 70. http://money.cnn.com/2017/05/26/pf/retirement-age-70-pensions/

 

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