Palavras de Paraninfo 2016.1

Nota preliminar:
Os formandos de 2016.1 – que por força das circunstâncias só colaram grau em 7 de dezembro de 2016 – também me honraram ao me acolher como paraninfo. Aproveito a publicação do discurso mais recente para também publicar (com pequenos ajustes) o que lhes dirigi naquela ocasião. Meus agradecimentos e minha homenagem aos também afilhados Anderson, Arthur, Fabiane, Marília, Matheus, Rafael, Rafaela e Rodrigo.

 
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Estimados Presentes:

A todos saúdo, fraternalmente, feliz por terem vindo celebrar conosco.

Esse dia solene é, certamente, das formandas e formandos (agora bacharéis) que chegaram até aqui, investindo tempo e saúde, espantando o sono, suportando o trânsito, driblando o desânimo e escapando à depressão. Assistiram a ótimas aulas e a aulas maçantes, estudaram assuntos de que gostam e outros tantos que não lhes dizem respeito. Realizaram tarefas aprazíveis e outras, abomináveis; fizeram provas interessantes e algumas sem sentido; cooperaram e se desentenderam, ensaiaram brigas que não foram adiante e depois festejaram as conquistas em comum. Aqui estão, afinal, vitoriosos. Em parte, graças ao que a escola e a Universidade fizeram por eles; em parte, apesar do que a escola e a universidade fizeram com eles.

Como ninguém vence sozinho, esse dia solene é mais ainda das mães e pais, avôs e avós, tias e tios (primeiro pelo coração, talvez pela genética), que acolheram suas crianças e acreditaram nos seus jovens, fazendo malabarismos mil para sustentá-los e educá-los, contornando conflitos, esticando o dinheiro e encolhendo o mês para juntar as pontas, escondendo as lágrimas e superando, na labuta do dia a dia, o cansaço das noites mal dormidas. Alegrem-se, senhoras e senhores, porque, graças a vocês, nossas Meninas e Meninos venceram mais essa etapa.

Namoradas e Namorados:

Esse dia solene não é exatamente seu. Corrijo-me: esse dia solene ainda não é plenamente seu. Não o digo por antipatia, mas pela força irrefreável da experiência. Sabem como é: os retratos de formatura geralmente mudam ao longo dos anos. Pessoas importantes, outras nem tanto, entram e saem das nossas vidas. Algumas permanecem, o que é muito bom. Então, se vocês permanecerem na vida dos seus pares por bastante tempo, se provarem que são importantes, por meio dos seus atos, dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano, aí sim, a data de hoje e outras datas solenes também lhes pertencerão.

Minhas Meninas e Meninos, candidatas e candidatos ao amor:

O amor não se improvisa. Não é uma dádiva, mas uma conquista a requerer reflexão e diligência, renúncia e deliberação. Amar é uma escolha que se reafirma todos os dias, nos pequenos gestos e nas grandes decisões, no atacado e no varejo. Já se disse que entre as praias ensolaradas do namoro e o mar largo da experiência em comum há uma distância enorme. A travessia, desafiadora, faz-se com alegria e austeridade, romantismo e bom-senso, energia e serenidade, companheirismo e respeito. Na prática – prestem atenção –, uma relação generosa, entre pessoas maduras, torna as duas, juntas, muito mais produtivas e felizes do que separadas. Mas uma relação narcisista, entre pessoas vãs, a ambas corrompe e corrompe o seu entorno, destruindo sonhos e degradando a realidade. Portanto, no campo do afeto, escolham direito, e honrem cada escolha que fizerem.

Minhas jovens e meus jovens profissionais, cidadãs e cidadãos:

Vivemos hoje na “sociedade do desempenho”, conforme expressão do filósofo coreano Byung-Chul Han, que se refere a um mundo onde se nos pede sempre mais: mais esforço, mais conhecimento, mais pressa, mais agilidade, mais produção, mais consumo, mais sucesso, mais tempo de vigília, mais cara de contente… E, com medo de ficar para trás, muitos de nós vamos atendendo a todos os pedidos, mesmo os insensatos, ridículos ou indecentes. Segundo o filósofo, em cada trabalhador se incorporam hoje, simultaneamente, o escravo e o capataz. A cobrança por metas fugazes, sempre mais ambiciosas, já não vem de fora, do outro, mas de dentro do próprio indivíduo. Se não nos cuidamos, terminamos por carregar a frustração permanente dos objetivos não alcançados, sem nos darmos conta de que os objetivos nunca foram nossos, mas daqueles que nos seduzem por meio do marketing e do dinheiro, ou nos oprimem por meio do assédio moral. A sociedade do desempenho é também a sociedade do esgotamento, do cansaço sem fim, da desesperança e do desalento. Sobre isso, um erudito lhes diria que não embarquem nessa nau desgovernada; eu lhes digo que não entrem nessa canoa furada.

É evidente que vocês precisam ganhar a vida, e sei que querem fazê-lo honestamente, produzindo para o bem comum. Por isso mesmo, recomendo que não percam a vida a pretexto de ganhá-la. Porque quem perde a vida se torna amargurado, logo, improdutivo. Busquem o sucesso sob a forma de alegria, porque viver com alegria é o maior sucesso que se pode almejar. Não me refiro, claro, à alegria de plástico, à alegria de fachada, tão comum nas tais “redes sociais”, nem tampouco à alegria entorpecente das festas que nunca terminam. Refiro-me à alegria de fazer o que se ama e conviver com quem se ama. A alegria de dormir o necessário, com a consciência paz, e acordar bem para as tarefas do dia. A alegria de construir coisas belas em pensamentos e palavras, algoritmos e objetos e, depois, contemplar a obra, dizendo: – Ficou boa e vai enriquecer a vida de alguém. Refiro-me, enfim, à alegria de ser querido pelo que se é e pelo que se faz, preenchendo a existência dos outros com momentos felizes.

Vocês colam grau em meio ao célere desmoronamento de estruturas políticas e econômicas arcaicas, no Brasil e pelo mundo afora. As estruturas novas estão por ser criadas, eis aí um grande desafio. Os oportunistas, os demagogos, os justiceiros, os falsos-profetas não surgem do nada, mas ocupam os vácuos de poder quando o poder instituído se desintegra. E o poder se desintegra sempre que não tem lastro moral e intelectual que o sustente face às demandas do tempo.

Não nos convence mais o discurso fatalista do “menos ruim”: o candidato menos ruim, o governo, a justiça, a política econômica menos ruim, o emprego menos ruim… Nada disso. Nós, programadores, sabemos que um código menos ruim é na verdade péssimo. Nós, projetistas de sistemas, sabemos que um sistema menos ruim é sempre um sistema disfuncional. Na melhor das hipóteses, inútil, na pior das hipóteses, autodestrutivo. Nós só nos contentamos com sistemas e códigos ótimos. Pois em matéria política, econômica e social dá-se o mesmo: o menos ruim é inaceitável; nós precisamos do bom e só devemos sossegar diante do ótimo – lembrando que o ótimo, para o informata, não é uma utopia, mas um estágio satisfatório de equilíbrio dinâmico, conducente a estágios existenciais mais aprimorados. Ademais, dizem os estudiosos, estamos em plena era da complexidade. Ora, o raciocínio sistêmico bem posto não nos permite aceitar o discurso raso e as práticas mecanicistas do “menos ruim” que, em várias partes do mundo, têm deixado um rastro de desespero e revolta, decorrentes da supressão de direitos fundamentais, aumento da miséria, aprofundamento das desigualdades e violenta repressão das vozes dissonantes.

Afilhadas e Afilhados:

Recomendo-lhes que honrem seus pais e mães, tios e tias, avôs e avós. Mas recomendo também que os desafiem sempre com a força do exemplo, quer dizer, sejam melhores, muito melhores do que eu e eles conseguimos ser.

A vida é uma aventura interessante, de horizontes largos. Não permitam que estreitem seus horizontes. Mantenham-se acordados, quando tentarem adormecê-los; sensatos, quando tentarem perdê-los; íntegros, quando tentarem corrompê-los; fortes, quando tentarem enfraquecê-los; altivos, quando tentarem humilhá-los, sensíveis, quando tentarem embrutecê-los; perseverantes, quando tentarem derrotá-los, joviais, quando tentarem envelhecê-los; brandos, quando tentarem enfurecê-los; indignados, quando tentarem acomodá-los, solidários, quando tentarem endurecê-los, tornando-os frios individualistas. Em suma: mantenham o coração aquecido e a mente alerta – sempre, aconteça o que acontecer.

Concluo, lembrando-lhes que me escolheram padrinho por sua conta e risco. Para mim, a escolha é uma honra. Para vocês, será motivo de desassossego: daqui por diante, o fantasma do professor exigente, inquieto e insatisfeito os assombrará todos os dias.

Com essa afetuosa maldição, eu os abençoo, em nome de Deus, dos seus emissários e das leis soberanas da vida. E peço, humildemente, que os ateus não me levem a mal: é o que de melhor lhes posso oferecer.

A todos, o meu muito obrigado.

 

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