Palavras de Paraninfo 2017.1

Nota preliminar:
O presente discurso, ligeiramente adaptado, foi proferido na formatura da turma de Sistemas de Informação 2017.1 da UNEB – Campus I, em 28 de julho de 2017, da qual tenho a honra de ser paraninfo. Deixo de fora, por desnecessárias, as saudações protocoladres. Por outro lado, reitero os agradecimentos aos Afilhados que, generosamente, obrigaram-me a escrever o texto e estimularam-me a publicá-lo.

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Queridos novos bacharéis, doravante meus Afilhados,
Ikaro, Iris, Jailton, Lorena e Rylan,

Obrigado por estarem aqui e por me permitirem celebrar com vocês, dirigindo-lhes a palavra nesse dia cerimonial.

 

Senhoras e Senhores,
Estimados Jovens,

Saudações fraternais; saudações cidadãs; saudações acadêmicas: a minha saudação, hoje, é também um apelo à resistência.

Saudações fraternais, eu disse. Mas a fraternidade anda escondida, quando não esquecida. Permanece viva, ainda assim, nas pessoas que saem de si para irem ao encontro das demais, socorrendo, amparando e instruindo. Porque há quem resista ao esquecimento da fraternidade, nós também resistiremos.

Saudações cidadãs, eu disse. Mas a cidadania, no Brasil e no mundo, vem sendo desprezada, violentada por homens e mulheres rendidos ao dinheiro que adoece suas mentes e corações. Permanece viva, ainda assim, nos gestos pequenos e nos grandes atos heroicos das pessoas voltadas ao bem comum. Porque há quem resista ao desprezo da cidadania, nós também resistiremos.

Saudações acadêmicas, eu disse. Mas a academia cai aos pedaços. Enquanto se digladiam os seus inimigos internos e externos, obcecados por interesses mesquinhos, os recursos minguam, os padrões se degradam e o pensamento se dilui, sem substância. Mas os espírito acadêmico sobrevive nos professores, técnicos e estudantes que repudiam as intrigas, assumem responsabilidades e se dedicam à construção do conhecimento libertador. Porque há quem resista ao desmoronamento da academia, nós também resistiremos.

 

Meninas e Meninos,
Afilhadas e Afilhados,

Eu lhes peço que resistam!

Resistam à barbárie, que se instala em um mundo onde o consumismo desborda em vulgaridade e depressão, vileza e ostentação, miséria e desperdício, vício, criminalidade, lixo e poluição.

Resistam à vida miserável que os senhores do mundo nos querem impor: vida tóxica, vida maltradada, vida para consumo, vida desperdiçada, nas palavras de Zygmunt Bauman (aquele sociólogo, velhinho simpático, recentemente falecido, a quem vocês conheceram nas aulas do primeiro semestre).

Resistam à boçalidade, ao cinismo e à hipocrisia; resistam a tudo o que é falso, aos enganos reluzentes, às aparências sem substância.

Resistam à superficialidade, à tolice travestida em divertimento, à esperteza travestida em inteligência, ao roubo travestido em lucro. Resistam aos lugares-comuns que levam a lugar nenhum, à conversa fiada; resistam as seduções que não levam a nada.

As seduções a que devemos resistir são os jogos de aparência, que sustentam a ignorância, excitam os sentidos e alimentam a vaidade: as sombras da caverna, em Platão; Maya, ou “o véu das ilusões”, nos Vedas; “o sono pesado da carne”, no Evangelho cristão. Seduções que se materializam, em geral, pelas vias do sexo desgovernado, do dinheiro sujo e do poder corrompido: no mundo em que vivemos, moedas intercambiáveis, de elevada liquidez; matéria-prima corriqueira dos desvios da inteligência e da embriaguez moral. Troca-se sexo por dinheiro e dinheiro por sexo, dinheiro por poder e poder por dinheiro, poder por sexo, e sexo por poder. E ficamos prisioneiros do atraso.

No mundo comandado pela mercadoria, onde as pessoas viram mercadorias, troca-se a dignidade por quinze minutos de fama, a integridade, por um iate nas Bahamas, o respeito dos filhos pelo aplauso dos falsos amigos a ternura das companheiras e companheiros pelo afago venal das garotas e garotos de programa. A alma, aflita, fica de fora. Depois, quando os falsos amigos debandam e as garotas e garotos de programa partem para outros serviços, a alma chora. “E agora, José?”, diria o inesquecível Drummond… “A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou”…

 

Meninas e Meninos,

Por que, logo no dia da formatura, eu lhes falo desse mundo ruim, ou dessa parte ruim do mundo? Afinal, sei que nenhum de vocês pretende nem imagina trocar a dignidade, a integridade, o respeito e a ternura pelas moedas da ilusão. Eu sei: vocês não pretendem, não querem, não cogitam… Os jovens da minha geração, e da anterior, e das outras antes daquela, também não pretendiam, não queriam, não cogitavam se vender – mas muitos se venderam. Hoje são mortos-vivos, mulheres e homens de meia idade, alguns, idosos, incapazes de comandar os seus próprios raciocínios, os seus próprios instintos, as suas próprias emoções. Então, eu lhes falo desse mundo ruim, ou dessa parte ruim do mundo, a fim de que, alertados, você nunca, mas nunca mesmo, se corrompam a pretexto de que ninguém os avisou. Alerto hoje, na cerimônia de formatura, porque vocês estão mais sensíveis; aproveito a ocasião para aumentar as chances de que se lembrem, todos os dias: vocês não devem se vender, vocês não podem se vender, vocês não têm que se vender para ganhar a vida e construir uma vida boa ao lado de outras vidas.

 

Afilhadas e Afilhados,

Ao colar grau, vocês não são mais estudantes da UNEB. Não tenho mais, sobre vocês, nenhum poder formal. Mas, se me atribuem ainda alguma autoridade moral, atendam ao meu apelo: jamais caiam na vala comum da indiferença, da malandragem e da luxúria. Sejam pessoas extraordinárias, por muito amar e por colocar sua inteligência a serviço do bem-estar humano, em equilíbrio com o Planeta, nossa casa comum. Façam isso e consertarão o poema, de modo que, para vocês, a festa da vida jamais se acabe, a luz jamais se apague e nunca faltem amigos. E, se algumas noites forem frias (possivelmente serão), guardem sempre em seus corações o calor do sol, até o resplandecer do novo dia.

 

Senhoras e Senhores,

Felicidades! Graças a vocês, nossas meninas e meninos chegaram até aqui, e daqui irão muito além.

Já vão longe, mas tão perto, os dias sacrificados, primeiro atrás do leite das crianças, depois, atrás do feijão com arroz para os adolescentes que tinham, no lugar do estômago, (como diz minha mãe) um buraco sem fundo – pois comiam, no café da manhã, como se não houvesse almoço, no almoço, como se não houvesse janta, na janta, como se não houvesse amanhã…

Já vão longe, mas tão perto, as noites indormidas vigiando as febres da infância e, na puberdade, as apreensões com os primeiros sinais do sexo em ebulição…

Já vão longe, mais tão perto, as broncas com a televisão alta, a correria na sala, o vaso quebrado, o chuveiro jorrando, o banheiro encharcado, a luz acesa fora de hora, a bagunça no quarto, o armário desarrumado, as meias encardidas (e quase imprestáveis), a calça nova rasgada no joelho, a roupa imunda da escola, os pés sujos no tapete, as mãos sujas na parede, o lápis de cera na parede, os adesivos na parede, o chiclete no chão, o jarro vazio na geladeira, a louça sem lavar e a casa sem varrer, depois de os mandarmos lavar a louça e varrer a casa, mil vezes…

Hoje (de certa forma), já não estão aqui aqueles anjinhos endiabrados, cãezinhos chupando manga, traquinas, levados na breca, virados no estopô, possuídos da mais pura alegria e de saudável peraltice. Saudade aliviada: os anjinhos agora são adultos que encerram, com méritos, uma etapa importantíssima no ciclo da vida. Prosseguirão, consolidando a sua independência social, moral e financeira, em período conturbado da história brasileira e mundial. Depois de todas as traquinagens infantis e imprudências adolescentes, se ainda estão vivos é porque seus anjos da guarda são fortes. Logo, confio que serão bem sucedidos de agora em diante.

Ainda assim, Senhoras e Senhores, cuidemos das nossas Meninas e Meninos. São adultos, eu sei, mas não dispensam acolhimento, bons conselhos, advertências e o aconchego que só os mais velhos podem dar. O velho que envelhece íntegro, jovial e saudável torna-se referência; o velho que se recusa a envelhecer se torna ridículo. No mundo, justamente, há novos e velhos, a fim de que nos completemos uns aos outros. Se, ao invés de nos completarmos, competimos pelos mesmos espaços, a sociedade estremece. Cada qual na sua seara, deixemos viver livremente, nossas Meninas e Meninos, mas estejamos sempre perto, como reservas de amor sabedoria, as quais, um dia, com certeza recorrerão.

Sugiro, às Senhoras e Senhores, um exercício simples, que procuro aplicar a mim mesmo: ao pensar nos jovens, especialmente nesses que ora saudamos, imaginemos como se lembrarão de nós quando partirmos deste mundo. Esforcemo-nos, daí, para sermos lembrados com respeito e gratidão. Se quisermos lhes deixar uma mensagem, que não seja póstuma, mas mensagem viva, aqui e agora: sejamos, desde já, exemplos de diligência, fraternidade e bom-senso. Continuemos a educá-los – antes, educando a nos mesmos.

 

Jovens,

Honrem seus pais e mães; por extensão, honrem todos os que, de um jeito ou de outro, se doaram e continuam se doando para que vocês prosperem.

 

Amigas e Amigos de todas as idades,

É sempre tempo de aprender. Por isso, fica o convite para que continuemos a aprender juntos, em busca de um mundo melhor para todos.

Mãos a obra; votos de paz.

Muito Obrigado.

4 ideias sobre “Palavras de Paraninfo 2017.1

  1. Rui Santos

    Professor, o senhor é um dos meus orgulhos nos tempos em que fui graduando na UNEB; e eu repassarei esta sua lição de vida aqui escrita com muito prazer e com a sua licença. Abraço fraterno!

    Resposta
  2. Rui Santos

    Republicou isso em Paulino Soltie comentado:
    O professor Cláudio Amorim foi meu orientador em trabalho de conclusão de curso, mas também o é na vida, com palavras tão sábias e indubitáveis. Leiam esta lição de vida e renovem seus corações.

    Resposta

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