Os Cortes na Aposentadoria e os Brioches de Maria Antonieta

Mais uma vez, a aposentadoria está nas manchetes: a notícia, agora, é a de que, em apenas um ano, aumentou 12% o número de lares brasileiros onde a aposentadoria representa mais de 75% da renda. Na prática, cada vez mais jovens desempregados dependem dos idosos aposentados para viver. Mas nem sempre tão jovens assim: o jornal O Estado de São Paulo fala de uma mulher de 58 anos, com duas graduações e pós-graduação, profissional de marketing, desempregada, vivendo com os pais aposentados, nonagenários (https://goo.gl/7qPn56). Como nem sempre os que dependem parcialmente ou totalmente dos aposentados vivem na mesma casa, a situação é provavelmente pior do que se infere a partir das estatísticas.

Ocorre que a recessão elimina postos de trabalho, ao passo em que os espaços para o subemprego e para os “bicos” mais diversos vão se tornando saturados. Nas grandes cidades brasileiras, as praças e ruas, o transporte coletivo e os sinais de trânsito estão cada vez mais carregados de pessoas tentando vender alguma coisa, para uma população cujo poder de compra continua caindo. Todos querem vender, mas cada vez menos há quem possa comprar.

Nesse ínterim, sem alarde e sem manchetes, mas celeremente, o governo federal vem convocando milhares e milhares de aposentados por invalidez (não se sabe ao certo quantos) a fim de reavaliar diagnósticos. Em muitos casos, as aposentadorias, consideradas indevidas, estão sendo cortadas. Claro, se houve fraude, deve-se cortar. Porém, frequentemente, o corte da aposentadoria não se dá por fraude, mas por revisão do caso: o que ontem se considerou condição incapacitante, agora não se considera mais, e o indivíduo, afastado do mundo do trabalho há anos, tem que se virar para reencontrar seu caminho.

Como em quase tudo o que refere às questões laborais e previdenciárias, na atualidade, mais uma vez a equação não fecha. Por um lado, falta emprego, e os desempregados dependem dos aposentados. Por outro lado, milhares de aposentadorias são canceladas, o que pressiona ainda mais a busca por trabalho remunerado. Segundo a lei de oferta e demanda, quanto maior a oferta de mão-de-obra (pessoas ansiosas por trabalhar), pior a remuneração. Assim, a massa salarial já em queda, devido à redução dos postos de trabalho, cai ainda mais, devido à redução dos salários. Despenca a massa salarial e, com ela, vai por água abaixo a arrecadação previdenciária. Com a arrecadação em baixa, aumenta a pressão por cortes previdenciários, retroalimentando o círculo vicioso.

Mães, pais e avós atropelados pelas urgências materiais são forçados a interromper a formação escolar e profissional de seus filhos e netos, distanciando-os ainda mais dos escassos postos de trabalho. A muitos estudantes, falta até o dinheiro para se deslocarem à escola, universidade ou centro de formação profissional. Quem pode, sustenta os filhos e netos anos a fio, em especializações profissionais ou em preparação para concursos públicos, sem qualquer garantia de retorno econômico futuro. Ao fim e ao cabo, multiplicam-se as pessoas angustiadas, tensas, descrentes e desalentadas, algumas revoltadas, sobretudo jovens. Famílias se desestruturam e acentuam-se conflitos na vida privada e na esfera pública, lembrando a triste atualidade do dito popular, “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Agravando a problemática ainda mais, se os jovens de hoje não tiverem renda própria ou, mesmo a tendo, desacreditarem o sistema previdenciário, deixarão de poupar para o dia de amanhã. Viveremos, então, em uma sociedade de consumidores imediatistas, sem poupança e investimento, como prenúncio de um colapso de proporções impensáveis. O governo deveria investir em pesquisa, desenvolvimento, educação, condições elementares para a solidez econômica no futuro. Em outras palavras, em lugar de deixarmos os jovens serem sustentados pelos mais velhos, devemos incentivá-los a trabalhar a inteligência por meio de bolsas e demais recursos necessários ao desenvolvimento científico, artístico e tecnológico, com benefícios econômicos e culturais duradouros. Contudo, nunca há dinheiro para educar pelo trabalho e pela pesquisa, mas sempre há dinheiro para subsidiar lucros assombrosos dos grandes bancos e das empresas transnacionais, inclusive perdoando-lhes enormes dívidas tributárias. Sempre falta dinheiro para formar a juventude, nunca para remunerar os rentistas, ou seja, afagar os ricos já muito ricos.

É preciso retomar todos os dias a lição de Thomas Piketty: não se sustenta um mundo onde a remuneração do capital ocorre a taxas sempre superiores ao crescimento da produção.

Cortes e mais cortes, políticas de austeridade, regras draconianas para acesso aos benefícios sociais são aspectos do conflito distributivo, hoje em franco benefício dos financistas que se locupletam com os juros da dívida pública, sem dar nada em troca à sociedade. É assim no Brasil, na Grécia, na Espanha, na Grã-Bretanha e pelo mundo afora. Ganham os especuladores, perdem os trabalhadores e os empresários produtivos que restam.

As políticas recessivas não vêm do nada. Seus protagonistas têm rosto, nome e endereço, mas não se mostram e nem dão pistas das suas artimanhas. Agem às ocultas. Mandam recados, por meio da mídia e dos políticos-marionete, comprados a preço vil.

— Se a previdência pública não presta, que façam previdência privada — dizem hoje os grandes “investidores”, ao povo sem emprego nem renda.

Assim procedendo, revivem Maria Antonieta, a detestada rainha-consorte de França, que num arroubo de prepotência, teria mandado dizer ao povo explorado, faminto e odiento:

— Se não têm pão, que comam brioches.

Mas não havia brioches a comer, ninguém achou graça do chiste, e os camponeses, de forcados em punho, engrossaram a massa de revoltosos. Nos meses tumultuados que se seguiram, a rainha piadista e outros nobres desavisados perderam a cabeça na guilhotina. Conhecedor desse episódio, Nick Hanauer, bilionário norte-americano,  tem dito aos seus colegas bilionários  (https://goo.gl/h64Tgg):

— Cuidado, os forcados estão chegando.

É verdade, a história se repete: um dia, os forcados sempre alcançam a elite deslumbrada, entorpecida e indiferente às dores alheias.

 

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