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Palavras de Paraninfo 2016.1

Nota preliminar:
Os formandos de 2016.1 – que por força das circunstâncias só colaram grau em 7 de dezembro de 2016 – também me honraram ao me acolher como paraninfo. Aproveito a publicação do discurso mais recente para também publicar (com pequenos ajustes) o que lhes dirigi naquela ocasião. Meus agradecimentos e minha homenagem aos também afilhados Anderson, Arthur, Fabiane, Marília, Matheus, Rafael, Rafaela e Rodrigo.

 
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Estimados Presentes:

A todos saúdo, fraternalmente, feliz por terem vindo celebrar conosco.

Esse dia solene é, certamente, das formandas e formandos (agora bacharéis) que chegaram até aqui, investindo tempo e saúde, espantando o sono, suportando o trânsito, driblando o desânimo e escapando à depressão. Assistiram a ótimas aulas e a aulas maçantes, estudaram assuntos de que gostam e outros tantos que não lhes dizem respeito. Realizaram tarefas aprazíveis e outras, abomináveis; fizeram provas interessantes e algumas sem sentido; cooperaram e se desentenderam, ensaiaram brigas que não foram adiante e depois festejaram as conquistas em comum. Aqui estão, afinal, vitoriosos. Em parte, graças ao que a escola e a Universidade fizeram por eles; em parte, apesar do que a escola e a universidade fizeram com eles.

Como ninguém vence sozinho, esse dia solene é mais ainda das mães e pais, avôs e avós, tias e tios (primeiro pelo coração, talvez pela genética), que acolheram suas crianças e acreditaram nos seus jovens, fazendo malabarismos mil para sustentá-los e educá-los, contornando conflitos, esticando o dinheiro e encolhendo o mês para juntar as pontas, escondendo as lágrimas e superando, na labuta do dia a dia, o cansaço das noites mal dormidas. Alegrem-se, senhoras e senhores, porque, graças a vocês, nossas Meninas e Meninos venceram mais essa etapa.

Namoradas e Namorados:

Esse dia solene não é exatamente seu. Corrijo-me: esse dia solene ainda não é plenamente seu. Não o digo por antipatia, mas pela força irrefreável da experiência. Sabem como é: os retratos de formatura geralmente mudam ao longo dos anos. Pessoas importantes, outras nem tanto, entram e saem das nossas vidas. Algumas permanecem, o que é muito bom. Então, se vocês permanecerem na vida dos seus pares por bastante tempo, se provarem que são importantes, por meio dos seus atos, dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano, aí sim, a data de hoje e outras datas solenes também lhes pertencerão.

Minhas Meninas e Meninos, candidatas e candidatos ao amor:

O amor não se improvisa. Não é uma dádiva, mas uma conquista a requerer reflexão e diligência, renúncia e deliberação. Amar é uma escolha que se reafirma todos os dias, nos pequenos gestos e nas grandes decisões, no atacado e no varejo. Já se disse que entre as praias ensolaradas do namoro e o mar largo da experiência em comum há uma distância enorme. A travessia, desafiadora, faz-se com alegria e austeridade, romantismo e bom-senso, energia e serenidade, companheirismo e respeito. Na prática – prestem atenção –, uma relação generosa, entre pessoas maduras, torna as duas, juntas, muito mais produtivas e felizes do que separadas. Mas uma relação narcisista, entre pessoas vãs, a ambas corrompe e corrompe o seu entorno, destruindo sonhos e degradando a realidade. Portanto, no campo do afeto, escolham direito, e honrem cada escolha que fizerem.

Minhas jovens e meus jovens profissionais, cidadãs e cidadãos:

Vivemos hoje na “sociedade do desempenho”, conforme expressão do filósofo coreano Byung-Chul Han, que se refere a um mundo onde se nos pede sempre mais: mais esforço, mais conhecimento, mais pressa, mais agilidade, mais produção, mais consumo, mais sucesso, mais tempo de vigília, mais cara de contente… E, com medo de ficar para trás, muitos de nós vamos atendendo a todos os pedidos, mesmo os insensatos, ridículos ou indecentes. Segundo o filósofo, em cada trabalhador se incorporam hoje, simultaneamente, o escravo e o capataz. A cobrança por metas fugazes, sempre mais ambiciosas, já não vem de fora, do outro, mas de dentro do próprio indivíduo. Se não nos cuidamos, terminamos por carregar a frustração permanente dos objetivos não alcançados, sem nos darmos conta de que os objetivos nunca foram nossos, mas daqueles que nos seduzem por meio do marketing e do dinheiro, ou nos oprimem por meio do assédio moral. A sociedade do desempenho é também a sociedade do esgotamento, do cansaço sem fim, da desesperança e do desalento. Sobre isso, um erudito lhes diria que não embarquem nessa nau desgovernada; eu lhes digo que não entrem nessa canoa furada.

É evidente que vocês precisam ganhar a vida, e sei que querem fazê-lo honestamente, produzindo para o bem comum. Por isso mesmo, recomendo que não percam a vida a pretexto de ganhá-la. Porque quem perde a vida se torna amargurado, logo, improdutivo. Busquem o sucesso sob a forma de alegria, porque viver com alegria é o maior sucesso que se pode almejar. Não me refiro, claro, à alegria de plástico, à alegria de fachada, tão comum nas tais “redes sociais”, nem tampouco à alegria entorpecente das festas que nunca terminam. Refiro-me à alegria de fazer o que se ama e conviver com quem se ama. A alegria de dormir o necessário, com a consciência paz, e acordar bem para as tarefas do dia. A alegria de construir coisas belas em pensamentos e palavras, algoritmos e objetos e, depois, contemplar a obra, dizendo: – Ficou boa e vai enriquecer a vida de alguém. Refiro-me, enfim, à alegria de ser querido pelo que se é e pelo que se faz, preenchendo a existência dos outros com momentos felizes.

Vocês colam grau em meio ao célere desmoronamento de estruturas políticas e econômicas arcaicas, no Brasil e pelo mundo afora. As estruturas novas estão por ser criadas, eis aí um grande desafio. Os oportunistas, os demagogos, os justiceiros, os falsos-profetas não surgem do nada, mas ocupam os vácuos de poder quando o poder instituído se desintegra. E o poder se desintegra sempre que não tem lastro moral e intelectual que o sustente face às demandas do tempo.

Não nos convence mais o discurso fatalista do “menos ruim”: o candidato menos ruim, o governo, a justiça, a política econômica menos ruim, o emprego menos ruim… Nada disso. Nós, programadores, sabemos que um código menos ruim é na verdade péssimo. Nós, projetistas de sistemas, sabemos que um sistema menos ruim é sempre um sistema disfuncional. Na melhor das hipóteses, inútil, na pior das hipóteses, autodestrutivo. Nós só nos contentamos com sistemas e códigos ótimos. Pois em matéria política, econômica e social dá-se o mesmo: o menos ruim é inaceitável; nós precisamos do bom e só devemos sossegar diante do ótimo – lembrando que o ótimo, para o informata, não é uma utopia, mas um estágio satisfatório de equilíbrio dinâmico, conducente a estágios existenciais mais aprimorados. Ademais, dizem os estudiosos, estamos em plena era da complexidade. Ora, o raciocínio sistêmico bem posto não nos permite aceitar o discurso raso e as práticas mecanicistas do “menos ruim” que, em várias partes do mundo, têm deixado um rastro de desespero e revolta, decorrentes da supressão de direitos fundamentais, aumento da miséria, aprofundamento das desigualdades e violenta repressão das vozes dissonantes.

Afilhadas e Afilhados:

Recomendo-lhes que honrem seus pais e mães, tios e tias, avôs e avós. Mas recomendo também que os desafiem sempre com a força do exemplo, quer dizer, sejam melhores, muito melhores do que eu e eles conseguimos ser.

A vida é uma aventura interessante, de horizontes largos. Não permitam que estreitem seus horizontes. Mantenham-se acordados, quando tentarem adormecê-los; sensatos, quando tentarem perdê-los; íntegros, quando tentarem corrompê-los; fortes, quando tentarem enfraquecê-los; altivos, quando tentarem humilhá-los, sensíveis, quando tentarem embrutecê-los; perseverantes, quando tentarem derrotá-los, joviais, quando tentarem envelhecê-los; brandos, quando tentarem enfurecê-los; indignados, quando tentarem acomodá-los, solidários, quando tentarem endurecê-los, tornando-os frios individualistas. Em suma: mantenham o coração aquecido e a mente alerta – sempre, aconteça o que acontecer.

Concluo, lembrando-lhes que me escolheram padrinho por sua conta e risco. Para mim, a escolha é uma honra. Para vocês, será motivo de desassossego: daqui por diante, o fantasma do professor exigente, inquieto e insatisfeito os assombrará todos os dias.

Com essa afetuosa maldição, eu os abençoo, em nome de Deus, dos seus emissários e das leis soberanas da vida. E peço, humildemente, que os ateus não me levem a mal: é o que de melhor lhes posso oferecer.

A todos, o meu muito obrigado.

 

Palavras de Paraninfo 2017.1

Nota preliminar:
O presente discurso, ligeiramente adaptado, foi proferido na formatura da turma de Sistemas de Informação 2017.1 da UNEB – Campus I, em 28 de julho de 2017, da qual tenho a honra de ser paraninfo. Deixo de fora, por desnecessárias, as saudações protocoladres. Por outro lado, reitero os agradecimentos aos Afilhados que, generosamente, obrigaram-me a escrever o texto e estimularam-me a publicá-lo.

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Queridos novos bacharéis, doravante meus Afilhados,
Ikaro, Iris, Jailton, Lorena e Rylan,

Obrigado por estarem aqui e por me permitirem celebrar com vocês, dirigindo-lhes a palavra nesse dia cerimonial.

 

Senhoras e Senhores,
Estimados Jovens,

Saudações fraternais; saudações cidadãs; saudações acadêmicas: a minha saudação, hoje, é também um apelo à resistência.

Saudações fraternais, eu disse. Mas a fraternidade anda escondida, quando não esquecida. Permanece viva, ainda assim, nas pessoas que saem de si para irem ao encontro das demais, socorrendo, amparando e instruindo. Porque há quem resista ao esquecimento da fraternidade, nós também resistiremos.

Saudações cidadãs, eu disse. Mas a cidadania, no Brasil e no mundo, vem sendo desprezada, violentada por homens e mulheres rendidos ao dinheiro que adoece suas mentes e corações. Permanece viva, ainda assim, nos gestos pequenos e nos grandes atos heroicos das pessoas voltadas ao bem comum. Porque há quem resista ao desprezo da cidadania, nós também resistiremos.

Saudações acadêmicas, eu disse. Mas a academia cai aos pedaços. Enquanto se digladiam os seus inimigos internos e externos, obcecados por interesses mesquinhos, os recursos minguam, os padrões se degradam e o pensamento se dilui, sem substância. Mas os espírito acadêmico sobrevive nos professores, técnicos e estudantes que repudiam as intrigas, assumem responsabilidades e se dedicam à construção do conhecimento libertador. Porque há quem resista ao desmoronamento da academia, nós também resistiremos.

 

Meninas e Meninos,
Afilhadas e Afilhados,

Eu lhes peço que resistam!

Resistam à barbárie, que se instala em um mundo onde o consumismo desborda em vulgaridade e depressão, vileza e ostentação, miséria e desperdício, vício, criminalidade, lixo e poluição.

Resistam à vida miserável que os senhores do mundo nos querem impor: vida tóxica, vida maltradada, vida para consumo, vida desperdiçada, nas palavras de Zygmunt Bauman (aquele sociólogo, velhinho simpático, recentemente falecido, a quem vocês conheceram nas aulas do primeiro semestre).

Resistam à boçalidade, ao cinismo e à hipocrisia; resistam a tudo o que é falso, aos enganos reluzentes, às aparências sem substância.

Resistam à superficialidade, à tolice travestida em divertimento, à esperteza travestida em inteligência, ao roubo travestido em lucro. Resistam aos lugares-comuns que levam a lugar nenhum, à conversa fiada; resistam as seduções que não levam a nada.

As seduções a que devemos resistir são os jogos de aparência, que sustentam a ignorância, excitam os sentidos e alimentam a vaidade: as sombras da caverna, em Platão; Maya, ou “o véu das ilusões”, nos Vedas; “o sono pesado da carne”, no Evangelho cristão. Seduções que se materializam, em geral, pelas vias do sexo desgovernado, do dinheiro sujo e do poder corrompido: no mundo em que vivemos, moedas intercambiáveis, de elevada liquidez; matéria-prima corriqueira dos desvios da inteligência e da embriaguez moral. Troca-se sexo por dinheiro e dinheiro por sexo, dinheiro por poder e poder por dinheiro, poder por sexo, e sexo por poder. E ficamos prisioneiros do atraso.

No mundo comandado pela mercadoria, onde as pessoas viram mercadorias, troca-se a dignidade por quinze minutos de fama, a integridade, por um iate nas Bahamas, o respeito dos filhos pelo aplauso dos falsos amigos a ternura das companheiras e companheiros pelo afago venal das garotas e garotos de programa. A alma, aflita, fica de fora. Depois, quando os falsos amigos debandam e as garotas e garotos de programa partem para outros serviços, a alma chora. “E agora, José?”, diria o inesquecível Drummond… “A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou”…

 

Meninas e Meninos,

Por que, logo no dia da formatura, eu lhes falo desse mundo ruim, ou dessa parte ruim do mundo? Afinal, sei que nenhum de vocês pretende nem imagina trocar a dignidade, a integridade, o respeito e a ternura pelas moedas da ilusão. Eu sei: vocês não pretendem, não querem, não cogitam… Os jovens da minha geração, e da anterior, e das outras antes daquela, também não pretendiam, não queriam, não cogitavam se vender – mas muitos se venderam. Hoje são mortos-vivos, mulheres e homens de meia idade, alguns, idosos, incapazes de comandar os seus próprios raciocínios, os seus próprios instintos, as suas próprias emoções. Então, eu lhes falo desse mundo ruim, ou dessa parte ruim do mundo, a fim de que, alertados, você nunca, mas nunca mesmo, se corrompam a pretexto de que ninguém os avisou. Alerto hoje, na cerimônia de formatura, porque vocês estão mais sensíveis; aproveito a ocasião para aumentar as chances de que se lembrem, todos os dias: vocês não devem se vender, vocês não podem se vender, vocês não têm que se vender para ganhar a vida e construir uma vida boa ao lado de outras vidas.

 

Afilhadas e Afilhados,

Ao colar grau, vocês não são mais estudantes da UNEB. Não tenho mais, sobre vocês, nenhum poder formal. Mas, se me atribuem ainda alguma autoridade moral, atendam ao meu apelo: jamais caiam na vala comum da indiferença, da malandragem e da luxúria. Sejam pessoas extraordinárias, por muito amar e por colocar sua inteligência a serviço do bem-estar humano, em equilíbrio com o Planeta, nossa casa comum. Façam isso e consertarão o poema, de modo que, para vocês, a festa da vida jamais se acabe, a luz jamais se apague e nunca faltem amigos. E, se algumas noites forem frias (possivelmente serão), guardem sempre em seus corações o calor do sol, até o resplandecer do novo dia.

 

Senhoras e Senhores,

Felicidades! Graças a vocês, nossas meninas e meninos chegaram até aqui, e daqui irão muito além.

Já vão longe, mas tão perto, os dias sacrificados, primeiro atrás do leite das crianças, depois, atrás do feijão com arroz para os adolescentes que tinham, no lugar do estômago, (como diz minha mãe) um buraco sem fundo – pois comiam, no café da manhã, como se não houvesse almoço, no almoço, como se não houvesse janta, na janta, como se não houvesse amanhã…

Já vão longe, mas tão perto, as noites indormidas vigiando as febres da infância e, na puberdade, as apreensões com os primeiros sinais do sexo em ebulição…

Já vão longe, mais tão perto, as broncas com a televisão alta, a correria na sala, o vaso quebrado, o chuveiro jorrando, o banheiro encharcado, a luz acesa fora de hora, a bagunça no quarto, o armário desarrumado, as meias encardidas (e quase imprestáveis), a calça nova rasgada no joelho, a roupa imunda da escola, os pés sujos no tapete, as mãos sujas na parede, o lápis de cera na parede, os adesivos na parede, o chiclete no chão, o jarro vazio na geladeira, a louça sem lavar e a casa sem varrer, depois de os mandarmos lavar a louça e varrer a casa, mil vezes…

Hoje (de certa forma), já não estão aqui aqueles anjinhos endiabrados, cãezinhos chupando manga, traquinas, levados na breca, virados no estopô, possuídos da mais pura alegria e de saudável peraltice. Saudade aliviada: os anjinhos agora são adultos que encerram, com méritos, uma etapa importantíssima no ciclo da vida. Prosseguirão, consolidando a sua independência social, moral e financeira, em período conturbado da história brasileira e mundial. Depois de todas as traquinagens infantis e imprudências adolescentes, se ainda estão vivos é porque seus anjos da guarda são fortes. Logo, confio que serão bem sucedidos de agora em diante.

Ainda assim, Senhoras e Senhores, cuidemos das nossas Meninas e Meninos. São adultos, eu sei, mas não dispensam acolhimento, bons conselhos, advertências e o aconchego que só os mais velhos podem dar. O velho que envelhece íntegro, jovial e saudável torna-se referência; o velho que se recusa a envelhecer se torna ridículo. No mundo, justamente, há novos e velhos, a fim de que nos completemos uns aos outros. Se, ao invés de nos completarmos, competimos pelos mesmos espaços, a sociedade estremece. Cada qual na sua seara, deixemos viver livremente, nossas Meninas e Meninos, mas estejamos sempre perto, como reservas de amor sabedoria, as quais, um dia, com certeza recorrerão.

Sugiro, às Senhoras e Senhores, um exercício simples, que procuro aplicar a mim mesmo: ao pensar nos jovens, especialmente nesses que ora saudamos, imaginemos como se lembrarão de nós quando partirmos deste mundo. Esforcemo-nos, daí, para sermos lembrados com respeito e gratidão. Se quisermos lhes deixar uma mensagem, que não seja póstuma, mas mensagem viva, aqui e agora: sejamos, desde já, exemplos de diligência, fraternidade e bom-senso. Continuemos a educá-los – antes, educando a nos mesmos.

 

Jovens,

Honrem seus pais e mães; por extensão, honrem todos os que, de um jeito ou de outro, se doaram e continuam se doando para que vocês prosperem.

 

Amigas e Amigos de todas as idades,

É sempre tempo de aprender. Por isso, fica o convite para que continuemos a aprender juntos, em busca de um mundo melhor para todos.

Mãos a obra; votos de paz.

Muito Obrigado.

O Imbróglio da Previdência – Parte 2

No post anterior sobre a previdência, destaquei a equação que não fecha: por um lado diz-se que é preciso aumentar o tempo de contribuição e a idade mínima da aposentadoria, para fazer face à queda de natalidade e ao aumento da expectativa de vida; por outro lado, o número de empregos gerados não atende às necessidades de quem precisa ou gostaria de trabalhar e se aposentar um dia. Leio, agora [1], que o Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum, ou WEF) repete, mais uma vez, o argumento de que os países (em particular os chamados países ricos) devem apertar as regras previdenciárias, sob pena de sofrerem os efeitos da “bomba-relógio” demográfica.

O WEF é uma confraria de oligarcas, notórios ou reclusos, em pessoa ou representados pelos tecnocratas e políticos às suas ordens, mundo afora. São, caracteristicamente, homens, quase todos brancos, que nunca se preocuparam com aposentadorias ou pensões, a ditar regras sobre como a economia mundial deveria funcionar para dar melhores resultados – melhores resultados para eles, claro, não necessariamente para o grosso da população. Movem-se pelo fetiche do “crescimento” ilimitado, leia-se acumulação sem freios, ainda que à custa da degradação socioambiental extrema. Só enxergam as necessidades humanas através dos números: são cegos àquilo que os números não podem dizer.

Ora, os oligarcas transnacionais são justamente os detentores do capital que engole os trabalhadores a cada dia, achatando salários, acabando com as carreiras estáveis, promovendo a oscilação dos rendimentos oriundos do trabalho e provocando doenças ocupacionais, tanto físicas como mentais – fatores que oneram os sistemas previdenciários pelo lado da receita e pelo lado das despesas. São também os patrocinadores da sociedades sem empregos, obcecados pelas tecnologias poupadouras de obra e pelas fusões empresariais que demitem em massa, enquanto concentram mais tarefas e responsabilidades sobre aqueles que continuam empregados.

Afirmam, agora, que a aposentadoria aos 70 anos, no mínimo, deveria se tornar regra até 2050, ou seja, nas próximas três décadas. Devo, então, insistir na questão posta anteriormente: onde as pessoas trabalharão até os 70 anos, com rendimentos suficientes e constantes, a fim de contribuir com a previdência e fazer jus à aposentadoria? E, insisto, não basta acenar com trabalho precário, incerto e parcamente remunerado. Se os conselheiros econômicos das elites pedem mais prolongadas contribuições previdenciárias, devem dizer de onde os trabalhadores tirarão os recursos necessários. Talvez, quem sabe, dos trilhões de dólares depositados em paraísos fiscais, ou do caixa assombroso das maiores empresas de tecnologia, que não investem e nem contratam, porque preferem pagar gordos dividendos aos acionistas milionários, em lugar de promover a atividade econômica socialmente relevante. Mas, se tais recursos forem mobilizados, talvez as pessoas não precisem trabalhar tantos anos, afinal, e possam se aposentar cedo, a fim de cultivar os valores existenciais que as planilhas não medem.

A questão previdenciária só poderá ser satisfatoriamente equacionada quando (1) deixarmos de ver o mundo de abastança do Século XXI como se fosse ainda o mundo de escassez do Século XVIII e (2) pensarmos no dinheiro como representação relativa de valor, até certo ponto ficcional, e não como medida absoluta de riqueza presente e futura. Pouco importa uma poupança pública ou privada nominal que não se materialize como efetivo valor de uso, no tempo certo. O que a geração presente precisa deixar às gerações futuras, em termos econômicos, são valores efetivos, sob a forma de serviços e produtos sustentáveis e propiciadores de bem estar, ganhos de produtividade e um patrimônio intelectual orientado a avanços científicos e tecnológicos permanentes. A representação contábil desses valores é logicamente secundária, ou seja, não é causa, mas efeito.

Hoje, na prática, os homens brancos das elites (digamos, os 0,01% mais ricos) garantem muito cedo a sua aposentadoria e a fortuna dos seus herdeiros, por meios lícitos ou ilícitos, frequentemente imorais. Ganham bônus injustificáveis, recebem salários inflados, vendem informações privilegiadas, enganam investidores tolos, subjugam trabalhadores desprotegidos, evadem impostos, emprestam a juros abusivos, especulam com o preço da comida, inflacionam a moradia, constróem monopólios, tramam cartéis. Aos 55 ou 60 anos, senão antes, já garantiram as benesses decorrentes do seu talento em ganhar dinheiro tirando dos outros, diretamente ou por meio do assalto aos cofres públicos. Em geral, continuam trabalhando para faturar, é certo, mas antes por vaidade e ganância do que por necessidade. Nessas circunstâncias, e fácil receitar austeridade com a aposentadoria alheia. Pimenta nos olhos dos outros, como diz o ditado.

Sejamos claros: hoje, interessa aos que estão no topo da pirâmide escolher os melhores dentre os melhores para ocupar os postos de trabalho que restam. Ora, quanto mais gente estiver obrigada a trabalhar até a morte, maior o número profissionais qualificados dispostos, ou melhor, forçados a aceitar condições aviltantes. No curto prazo, melhor para os lucros que abastecem os 0,01%. No longo prazo, contudo, a obsessão pelo trabalho remunerado, em um mundo sem empregos, tende a gerar transtornos sociais aos quais ninguém escapará. Pobres, ricos, remediados, até mesmo os ultra-ricos encastelados nas mansões, todos sofrerão, pois de nada valerá a riqueza monetária se o valor abstrato do dinheiro se diluir em uma sociedade disfuncional, radicalmente violenta, completamente fora de controle. No limite, nem rios de dinheiro poderão comprar segurança e sossego.

[1] Global retirement ‘timebomb’: Why you’ll have to work past 70. http://money.cnn.com/2017/05/26/pf/retirement-age-70-pensions/

 

A Banca Vencerá?

É chover no molhado dizer que o Brasil atravessa uma das maiores crises econômicas da sua história: o PIB cai, o desemprego, o subemprego e o trabalho precário crescem escandalosamente, lojas fecham, pequenos (ou não tão pequenos) empresários vão à falência. Os salários encolhem, milhares de servidores ativos e aposentados ficam sem rendimentos, ou com rendimentos atrasados, experimentando a humilhação – inédita para muitos – das contas atrasadas, das refeições minguadas e da falta de gás para cozinhar o pouco que resta na geladeira oca. Perto de mim, há mais de um jovem talentoso e dedicado que interrompeu os estudos universitários porque a família, de classe média, já não pode pagar as mensalidades. Não obstante, os bancos vão muito bem, segundo os mais recentes balanços trimestrais, livremente acessíveis nos sites de notícias econômicas. Vejamos.

Itaú Unibanco: lucro de R$ 6,18 bilhões; alta de 19,6% em relação ao primeiro trimestre de 2016.

Bradesco: lucro de R$ 4,07 bi, ou R$ 4,64 bi, quando descontada a aquisição do HSBC no Brasil; alta de 13,0%.

Santander: R$ 2,28 bi; alta de 37,3%.

Há nisso tudo filigranas contábeis cujos detalhes me escapam, porque não sou especialista em finanças. O que não me escapa é o espanto de ver os bancos (e por conseguinte, seus acionistas) ganharem tanto, ao passo em que a sociedade tanto tem perdido. Certo, os bancos brasileiros são notáveis pelos seus processos eficientes, tecnologia avançada e gestão prudente dos ativos (embora também conhecidos pelas demissões em massa, assédio moral aos trabalhadores, tarifas infladas, juros escorchantes, desrespeito aos clientes e artimanhas para evadir tributos e encargos devidos por lei). Cabe perguntar até quando conseguirão operar na contracorrente, arrancando riqueza de onde riqueza não há, ou melhor, apropriando-se da riqueza que há, mas que escapa às mãos e mentes que realmente trabalham para produzir valor.

Na terra arrasada da “austeridade”, são necessárias cada vez mais audácia, desfaçatez e violência para tirar muito de quem já tem pouco. Esse não é um fenômeno propriamente nacional, embora tenha no Brasil as suas peculiaridades. Por exemplo, temos aqui a instituição execrável do crédito consignado, que permite aos bancos sequestrar as parcelas devidas diretamente dos benefícios de um aposentado ou pensionista, mesmo que isso lhe custe o sofrimento de não poder comprar comida e remédios. Mas, e quando a “austeridade” em curso sufocar de vez as aposentadorias e pensões? Secará uma das fontes de dinheiro fácil para os bancos. E quando ruírem o comércio e a indústria, por falta de consumidores com renda bastante para comprar? A quem os bancos emprestarão dinheiro? Prosseguirão, por algum tempo, lucrando com as operações de empréstimo ao governo – sempre tão generoso ao remunerar os rentistas, na mesma medida em que é parcimonioso ao investir em saúde e educação. Porém o dinheiro do governo vem dos impostos… Ora, o nosso povo não é lá muito letrado, mas é esperto: pobres e remediados logo perceberão que vale mais à pena manter-se na economia informal do que declarar bens e direitos para um governo que arrecada de quem tem menos para encher os cofres de quem tem mais. Tornado insolvente, mesmo arrancando o possível e o impossível do povo lutador, o governo não poderá honrar as benesses aos rentistas (clientes dos bancos), que buscarão, como de praxe, dinheiro fácil em outras terras.

Não há mágica, em economia. O que de fato existe, em última análise, é criação e distribuição de valor. O dinheiro, como representação abstrata de valor econômico, é volátil: desaparece quando não tem lastro na riqueza real. No fim das contas, é por isso isso que ocorrem os periódicos estouros de “bolhas”, a que a humanidade vem se acostumando, tristemente. Portanto, é provável que, em breve, os bancos brasileiros sintam os efeitos colaterais das crises e “reformas” que ajudaram a financiar, para atender aos interesses de curto prazo dos seus acionistas e clientes preferenciais. A criação de valor no País foi praticamente interrompida; cedo ou tarde, nem mesmo os bancos terão de onde tirar dinheiro. Ao contrário, vão ter que se virar para cobrir os rombos das empresas credoras e aquelas de que são sócios. Enquanto isso não acontece, vão divulgando balanços azuis e fingindo que nada acontecerá.

No fundo, os banqueiros brasileiros e os estrangeiros aqui estabelecidos talvez tenham razão em não se preocupar tanto. Tal como acontece no mundo todo, esperam ser socorridos pelo dinheiro público, quando seus bancos não puderem se manter por meios próprios – mesmo que à custa de graves conflitos sociais. No mercado oligopolizado, são também “too big to fail”, ou grandes demais para quebrar, como se diz por aí. Nesse ínterim, os não tão grandes continuarão quebrando e não serão socorridos. Não se trata de “seleção natural”, ou “sucesso dos mais aptos”: é simplesmente um jogo de cartas marcadas, em um cassino onde vence a banca, sempre.

Epílogo: o problema com todo jogo de cartas marcadas é que um dia os perdedores habituais descobrem as falcatruas e eventualmente reagem (nem sempre da forma mais pacífica e inteligente). Quando isso ocorre, os donos do cassino tentam subornar os líderes dos descontentes e controlar a turba na base da paulada. Essa tática às vezes funciona, por um tempo. Mas nem sempre.

O Imbróglio da Previdência – Parte 1

Em um pequeno clássico da literatura política, “O Direito à Preguiça”, Paul Lafargue conclama os trabalhadores a lutar por uma jornada de trabalho diária de três horas, com férias de seis meses por ano. Isso, no final do Século XIX, quando uma jornada de oito horas diárias, com algum período breve de férias remuneradas, já seria uma conquista invejável. Ora, provavelmente Lafargue não esperava ser entendido ao pé da letra – ao menos, não no seu tempo –, mas lançou mão de uma hipérbole, a fim de chamar a atenção dos leitores para a obsessão pelo trabalho, entendido como mercadoria que se compra e vende. Ele queria dizer que, com o avanço da técnica, as pessoas deveriam trabalhar menos em busca do sustento, conquistando tempo livre para o afeto, o gozo estético, a filosofia e a ciência. Aliás, uma ideia antiga, remontando pelo menos à Grécia de Aristóteles.

Em meados da década de 1990, o filósofo alemão Robert Kurz publicou o texto “Com Todo Vapor ao Colapso”, em que sumariza considerações sobre a “crise da sociedade do trabalho”. Já naquela época, estava claro que a microeletrônica e a informática mudaram radicalmente, de forma irreversível, as relações entre produção e emprego. Se, antes, após cada crise do capitalismo, ocorria a recuperação dos postos de trabalho perdidos, agora não: a cada retomada, a recuperação dos postos de trabalho era sempre mais lenta do que o crescimento econômico. Logo, índices de desemprego considerados intoleráveis até a década de 1980 passaram a ser aceitos como naturais, apenas dez anos depois.

Desde o início do século XXI – portanto, anos antes de estourar a bolha de créditos podres, em 2007 – vivemos às voltas com o crescimento econômico persistentemente baixo e elevadíssimos níveis de desemprego, praticamente no mundo todo. Onde o desemprego é supostamente menor, como na Grã-Bretanha ou nos EUA, o trabalho precário avança tremendamente, resultando em um exército crescente de pobres economicamente ativos, denominados “working poor”, na literatura especializada. A cada ano, milhões de jovens formam-se nas universidades norte-americanas, europeias, japonesas e latino-americanas, para descobrir, em seguida, que suas qualificações não lhes darão emprego nem renda digna. Por outro lado, milhões de homens e mulheres entre 45 e 55 anos vão descobrindo que, no assim chamado “mercado de trabalho”, não há espaço para sua experiência e maturidade psicológica. Nesse ínterim, dezenas de artigos e vídeos, produzidos por pesquisadores sérios, mostram como os robôs e a inteligência artificial (IA) eliminarão, em cinco, dez e vinte anos, outros tantos postos de trabalho, onde os seres humanos ainda são necessários.

Eis que, em 2017, era de desemprego estrutural e automação generalizada, aqui estamos a discutir, em vários países, a reforma da previdência, mais de cem anos após o alerta de Lafargue e quase 25 anos depois das análises de Robert Kurz. Discussão indispensável, dizem-nos, devido à mudança da pirâmide etária. Na grande mídia, o argumento soa muito racional: as pessoas estão vivendo mais e a população está envelhecendo. Portanto, precisamos aumentar a idade mínima de aposentadoria e o tempo mínimo de contribuição. Caso contrário, o sistema previdenciário entrará em colapso. Destarte, políticos das mais diversas afiliações dizem que estão de acordo com a necessidade de reformas, embora divergindo amplamente quanto aos detalhes. Passamos, então, a fazer contas e mais contas, estimar receitas e despesas, propor idades de corte, argumentar sobre a paridade ou disparidade entre homens e mulheres, definir percentuais, engenhar esquemas de transição… Discutimos tudo, menos o essencial, ou seja, o futuro do trabalho remunerado, o que nos leva ao imperativo de reorganizar por completo a economia, em nível nacional e mundial.

É preciso entender, de saída, que não é o trabalho em si mesmo que gera riqueza, mas os ganhos de produtividade. Em palavras simples, o mundo atual produz tanto e emprega tão pouca gente porque as máquinas, cada vez mais poderosas e “inteligentes”, tornam a atividade econômica muito produtiva. E, no fundo, precisa-se de pouca gente para projetar, construir, operar e manter as máquinas. Logo, mantida a lógica econômica corrente, não haverá, daqui por diante, postos remunerados para todos os potenciais trabalhadores humanos. Sendo assim, os profissionais mais jovens, por demorarem a conseguir trabalho, ingressarão tardiamente no rol de contribuintes previdenciários, o que significa que só terão direito a se aposentar em idade bem avançada. Uma vez idosos, porém, não conseguirão trabalho regular e contribuirão intermitentemente para a previdência, o que novamente empurrará para adiante a sua aposentadoria. Sem rendimentos por aposentadoria e sem salário, serão um fardo socioeconômico e, pior, não conseguirão sustentar seus filhos jovens – aqueles, que também estarão desempregados. Abstração feita das dores, desajustes psíquicos e transtornos sociais daí decorrentes, mesmo na lógica contábil fria a conta não fecha. A questão básica, direta, incontornável é: como aumentar a idade mínima de aposentadoria e o tempo de contribuição, no contexto de uma ordem econômica que não gera postos de trabalho remunerado para todos os profissionais, especialmente os mais jovens e os mais velhos? Esse é o problema sempre escamoteado, que a mídia e os políticos cismam em não enfrentar.

Pelo andar da carruagem, é razoável pensar que políticos e mídia, assim como as oligarquias transnacionais a que servem, não se importam com a sorte das pessoas, desde que haja sempre um enorme contingente de profissionais qualificados, obedientes, dispostos a trabalhar em regime de máxima exploração; e outro contingente, de miseráveis, em permanente insegurança social, serviçais dóceis, mendigando condições mínimas de subsistência no trabalho precário. Mas também é razoável pensar que convulsões sociais decorrentes da crescente iniquidade levem de roldão, não só os pobres, mas, para variar, os ricos imediatistas, ignorantes e indiferentes à sorte alheia. Não sou eu quem o diz, mas um bilionário inteligente, Nick Hanauer, em sua palestra TED, intitulada “The Pitchforks are Coming”. Sim, talvez os forcados estejam chegando, mais cedo do que se pensa, conduzidos pela massa de revoltados que fermenta a cada dia, pelo mundo afora.

Os programas de austeridade sem fim estão matando as esperanças, corroendo a ética e despertando a ira do povo, no Brasil como na Grécia, na Argentina como na Grã-Bretanha. Na prática, programas que transferem dinheiro público aos rentistas, ou “investidores”, como gostam de ser chamados aqueles que vivem de explorar as carências, as incertezas e as dívidas dos mais fracos. O Imbróglio da previdência é apenas mais um elemento desse engodo global. Na linguagem popular, “conversa para boi dormir”. Por isso, ao contrário do que nos dizem, é uma boa ideia permitir que as pessoas comuns se aposentem com proventos decentes, relativamente jovens e ainda saudáveis: essa é uma condição necessária (embora não suficiente) para reduzir a iniquidade e elevar o nosso padrão civilizatório.

O IPVA da Ferrari e a Fuga das Galinhas

NOTA: O texto a seguir dormiu mais de três anos nos meus arquivos. Publico-o, sem alterar a menção a datas e valores, pois o sentido se preserva.

No estado de São Paulo, o proprietário de uma Ferrari F12 Beretta, avaliada em cerca de 2,5 milhões, vai pagar em 2014 o IPVA mais caro do estado: 101 mil reais. Isto é, dinheiro que compra um excelente carro, e com o qual muita gente realizaria o sonho da casa própria. O assunto, que rendeu algum destaque nas páginas da Internet, desencadeou reações contraditórias. Alguns internautas disseram que é assim mesmo, quem pode paga e não se fala mais nisso. Vários, porém, reagiram de outro modo. Um criticou a soma elevada, dizendo que nesse País pseudo-socialista a gente tem que ficar dando dinheiro ao governo e coisa e tal. Outro disse que o cidadão trabalha muito e depois fica pagando esses impostos abusivos para ter um bem, fruto do seu esforço. Outro, ainda, escreveu que o proprietário de um carro assim não deveria morar em um “lixo” chamado Brasil… E prosseguem os comentários, ofensivos ao governo, ao País, à nossa identidade como povo.

O IPVA dessa Ferrari não é um caso isolado, pois há, pelo Brasil afora, dezenas de carros caríssimos, cujo IPVA supera 50 mil reais. Portanto, são dezenas de milhões de reais imobilizados em símbolos de poder sobre quatro rodas, máquinas fora de série feitas para inflar o ego, satisfazer os caprichos, alimentar a vaidade de uns poucos. O que nos leva a uma reflexão ético-econômica, nesse mundo da economia sem ética.

O patrimônio privado avantajado, ainda quando amealhado por meios lícitos, é fruto do espírito empreendedor, criatividade, esforço, dedicação e, possivelmente, graves renúncias no campo afetivo. Porém – e esse é um enorme porém – uma pessoa, em particular, jamais ganha muito dinheiro sozinha, mas sempre por intermédio do trabalho de tantas outras pessoas, também laboriosas, dedicadas, talentosas e amiúde, exploradas. Ou seja, toda riqueza é riqueza socialmente produzida. Logo, quando alguém fatura o bastante para comprar e manter um carro de 2,5 milhões de reais, geralmente está em dívida com dezenas, centenas, talvez milhares de cooperadores, diretos ou indiretos, anônimos ou conhecidos, lembrados ou esquecidos.

Em um País como o Brasil, a posse de um carro assim significa, também, expressivo envio de divisas ao exterior, em detrimento da economia local. Paradoxalmente, a bronca mais comum dos brasileiros ricos – e dos ricos do mundo todo – é com a carga tributária. Surpreende, portanto, que o raciocínio não se sustente na hora em que compram objetos exuberantes, emblemas do super-supérfluo, aos quais se aplicam (com justiça) impostos altíssimos. Se a razão vencesse a paixão, concluiriam que os milhões despejados em supercarros cairiam bem melhor no investimento gerador de emprego, renda e conhecimento – de quebra, contribuindo para reduzir a violência que nos maltrata.

Como regra, os ricaços brasileiros conquistaram o que têm graças ao trabalho duro do povo, à natureza generosa e ao grande mercado interno do País. Se, em lugar de reinvestir, preferem esbanjar dinheiro com o luxo extremo, que paguem impostos extremos. Se os impostos não são aplicados como deveriam, a benefício público, isso não invalida a tese geral: quem tem regalias, que remunere a sociedade pelas regalias que ela lhes concedeu.

Em um memorável filme de animação stop motion, “A Fuga das Galinhas” (Chicken Run, ano 2000), as aves querem aprender a voar, de qualquer forma, para fugir da granja, quando descobrem que os proprietários deixarão de vender ovos para vender tortas de galinha. Na busca pela liberdade, dão lições de coragem, engenhosidade, solidariedade e persistência.

Devemos, talvez, perdoar a ignorância rude dos comentaristas que, ao defender agressivamente a ostentação ilimitada e irresponsável, desqualificam de uma só vez o governo, o País e o seu próprio povo. A exemplo das galinhas da fábula, eles também são vítimas do capital opressivo, que sustenta a ganância de poucos com base na exploração de muitos. Ao contrário das galinhas, porém, não buscam a liberdade, mas se entorpecem no consumismo, ludibriados por sonhos de grandeza e pelas promessas irrealizáveis do marketing. Melhor para os donos do galinheiro: afinal, quem precisa reprimir as galinhas, quando, sonâmbulas, elas caminham por si mesmas para o abatedouro?

A Vida de Betinho, em 279 Palavras

Betinho é um jovem baiano de classe média alta. Como tantos outros jovens baianos, Betinho gosta do Carnaval.

O Carnaval começava sábado, depois, sexta, mas hoje começa bem antes.

Na quinta de Carnaval, Betinho pulou, pulou, pulou. Bebeu. Beijou, Beijou, Beijou.

Na sexta, Betinho pulou, pulou, pulou. Beijou e bebeu, bebeu e beijou. Betinho transou com Silvinha, menina linda que ele não conhecia e talvez não volte a ver.

No sábado, Betinho beijou mais ainda, e mais bebeu. Transou com Mila, com quem já tinha ficado, mas que agora está ficando com Marcelinho.

No domingo – ufa! – Betinho bebeu e pulou, pulou, bebeu, bebeu e bebeu. Bebum, Betinho transou com… bom, ele não lembra o nome, mas era gostosa demais. Acha que era uma menina da escola, mas talvez não fosse. Mas acha que era menina.

Na segunda, Betinho bebeu mais um pouco, e mais pulou, pulou e pulou. Chegou junto de Mirinha, que foi namorada de Fábio, que agora está ficando com Daniela. Mas não rolou com Mirinha: na segunda, Betinho não transou.

Na terça, Betinho bebeu, pulou, beijou, bebeu, beijou e pulou. Tomou uma pílula azul. Transou, transou, transou, a essa altura, pouco importa com quem. Mas acha que eram meninas.

Na quarta, como um deus soberano, Betinho descansou sob o olhar orgulhoso dos pais, em seu ap de frente pro mar.

Na quinta, Betinho voltou às aulas, cheio de Carnaval em todos os poros.

Betinho ainda vai a muitas festas, em março, abril e maio… e depois, o São João.

Depois das festas da primavera e do verão, no ano que vem tem mais Carnaval. Nos intervalos, Betinho vai à academia.

A vida de Betinho é emocionante.