A Razão que Resta

Donald Trump venceu, afinal, as eleições presidenciais do colosso militar, maior produtor de petróleo, um dos maiores produtores industriais e agrícolas, maior mercado consumidor, e principal centro inovador do Planeta.

Venceu contra a mídia hegemônica, que fez de tudo para desqualificá-lo. Venceu contra os intelectuais e artistas, que viam em Hillary Clinton um “mal menor”. Venceu contra os interesses de empresas transnacionais incomodadas com a sua retórica protecionista. Venceu, enfim, contra metade do eleitorado, especialmente contra negros, latinos e muçulmanos, alarmados com o seu racismo, xenofobia e islamofobia. Mas terá Trump vencido contra todas as probabilidades? De modo algum.

A vitória de Trump é mais um ato do enfraquecimento que vem marcando, nos últimos anos, as chamadas democracias ocidentais, empobrecidas pela “banalização” da política a que se refere Mário Vargas Llosa. Consumação de um processo em que “a publicidade e seus slogans, lugares-comuns, frivolidades, modas e manias ocupam quase inteiramente a atividade antes dedicada a razões, programas, ideias e doutrinas”, nas palavras do peruano Prêmio Nobel de literatura (A Civilização do Espetáculo, 2012, p.44).

A mídia dos Estados Unidos resmunga, esbraveja e esperneia, mas conviverá doravante com um presidente que não desejou, embora o tenha produzido (é bom lembrar que Trump tornou-se célebre como apresentador de “O Aprendiz”). Talvez a oligarquia de lá aprenda com a oligarquia brasileira a difamar, caluniar, julgar e condenar presidentes, nas rádios TVs, jornais e revistas, para enfim destituí-los, à revelia da lei. Contudo, isso é muito pouco provável. Será mais fácil celebrar a paz, pragmaticamente, e seguir faturando, em conluio com os novos e velhos fantoches políticos. Business as usual, é a aposta de sempre nas terras do Tio Sam.

Ademais, os meios de comunicação que em tese abominam Trump são os grandes promotores do consumismo, imediatismo, hedonismo e individualismo, caldo de cultura onde fermentaram os votos do presidente eleito. A imprensa, cada vez mais centralizada, homogênea e superficial, vêm ao longo de décadas entorpecendo e enganando povo. É ela que abre espaço a políticos e empresários farsantes, suprime o contraditório, alimenta o mau gosto, fomenta a intolerância, mascara abusos de poder, exalta o militarismo, promove produtos nocivos às pessoas e ao meio ambiente e prestigia opiniões infundadas em prejuízo dos argumentos sólidos, com total desfaçatez. Agora, tem que aceitar a sua cria natural.

E o que tem feito o establishment bipartidário, esse curioso animal político estadunidense? Com diferenças programáticas mínimas, na teoria, e irrelevantes, na prática, Republicanos e Democratas têm representado os mais ricos dentre os ricos, com indisfarçável desprezo pelo cidadão comum, pelos pobres, pelos marginalizados, em um sistema socioeconômico onde aos “vencedores” cabem todos os ganhos, e aos “perdedores”, o abandono total. Não é à toa que Joseph Stiglitz, Nobel de Economia e ex-economista chefe do Banco Mundial, vem repetidamente denunciando a apropriação do sistema político do seu país pelos endinheirados, resultando em devastadora concentração de renda e poder: “os que estão no topo [do poder econômico e político]”, diz ele, “têm aprendido como tirar dinheiro dos outros por meios dos quais estes nem se dão conta” (The Price of Poverty, 2012, p.32).

Há quem diga que Trump foi eleito por um bando de fanáticos e milhões de eleitores “irracionais”. É assim mesmo: sempre que o voto popular perturba o sossego das classes dominantes, ameaçando uma ordem institucional frágil e obsoleta, reaparece essa acusação de irracionalidade, que nada explica, mas poupa aos derrotados discutir verdades inconvenientes. E a verdade inconveniente, agora indisfarçável, é que há, nos Estados Unidos, uma maioria que se sente abandonada pelos políticos e pela elite empresarial, tais como as mães e pais de meia-idade desempregados e subempregados, bem como seus jovens filhos universitários, tremendamente endividados e sem perspectivas profissionais à altura de suas demandas.

Elegeram Trump pessoas que nunca sonharam o “sonho americano”, mas, principalmente aquelas que um dia sonharam e acordaram de súbito para a realidade sombria das microempresas falidas, fábricas fechadas, demissões em massa, hipotecas vencidas, casas tomadas à força, burnout, doenças graves e mortes por overdose, sem direito a planos de saúde ou a auxílio funeral. Pessoas para quem a candidata das corporações, bancos e fundos de investimento nunca representou uma opção real; que viram em Hillary Clinton – com razão – apenas mais do mesmo. Pessoas cuja racionalidade foi corrompida pelas sucessivas desilusões políticas, pelas expectativas frustradas, pela incerteza e ansiedade permanentes, em lugar da antiga crença em dias melhores.

Os eleitores de Trump são racionais: só não votaram com a razão iluminada; votaram com a razão que lhes resta.

Por um Ano Bom

Todo dia é um novo dia, toda hora é um recomeço. Mas, no fim das contas, o Ano Novo é especial. Por isso, aproveito o período, a compartilhar minhas esperanças para 2016.

Espero que cada um cumpra com o seu dever antes de reivindicar direitos.

Que os médicos cuidem mais da saúde alheia do que dos interesses comerciais.

Que os professores ensinem as ciências, promovam o entusiasmo e exemplifiquem a ética.

Que os policiais e promotores combatam o  crime com vigor, sem desviar-se ou exorbitar nas suas funções.

Que os juízes administrem a justiça igualmente para pobres e ricos.

Que os engenheiros projetem e construam com vistas ao bem-estar humano, em equilíbrio com a natureza.

Que os designers recriem o mundo em bases de beleza, sutileza e funcionalidade.

Que os artistas, inspirados, respeitem as Musas, enriqueçam o público e encantem os amantes da arte.

Que os psicólogos resolvam as dores da alma e liberem os talentos que cada pessoa traz em si.

Que os agricultores retirem da terra o pão para todos, preservando-a para as próximas gerações.

Que os empresários produzam com segurança e qualidade.

Que os contadores zelem pelos ativos, sem omitir nem inventar fatos contábeis.

Que os operários trabalhem com zelo.

Que os motoristas, pilotos e maquinistas conduzam seus passageiros como se conduzissem seus próprios filhos.

Que os políticos coloquem a coisa pública acima dos seus desejos pessoais.

Que os sacerdotes de todos os credos semeiem a paz e alimentem a concórdia.

Que todos prometamos apenas o que queremos cumprir,
que nos dediquemos com esmero a coisas que nos dão alegria,
que cuidemos uns dos outros,
que enxuguemos lágrimas.

Mas, sobretudo, que façamos o nosso melhor, de modo que, muito em breve, já não haja tantas lágrimas a enxugar.

Em 2016, que vença o sorriso!

 

 

 

 

O Remédio Laranja

Há tempo escrevi aqui no Blog sobre a violência contra a mulher, lembrando Lima Barreto, um grande cronista dos fracos e oprimidos, que há mais de um século conclamava: “Não as matem, pelo amor de Deus!”. Hoje volto ao assunto, ainda inquieto pela quantidade de feminicídios que não param de frequentar a tela da televisão e as páginas dos jornais. Mas vamos ao que mais importa. Conscientizemo-nos do problema e mobilizemo-nos.

Por iniciativa do Secretário-Geral, Ban Ki-moon, a ONU declarou 25 de novembro o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres (http://www.un.org/en/events/endviolenceday/). Para marcar os 16 dias de ativismo, até 10 de dezembro, importantes ícones arquitetônicos e paisagísticos em redor do mundo serão iluminados na cor laranja. No Brasil, o Palácio do Planalto já recebeu as luzes alaranjadas, no último dia 19 (http://www.onumulheres.org.br/noticias/palacio-do-planalto-ganha-iluminacao-alusiva-a-campanha-pelo-fim-da-violencia-contra-a-mulher/).

A violência contra a mulher é um fenômeno arcaico, cujas raízes culturais precisam ser extirpadas em definitivo. Atinge países pobres e ricos, Estados laicos e religiosos, choupanas, barracos, apartamentos de classe média e mansões de luxo.

Forma de violência tanto mais cruel porque rotineira, banal e dissimulada. Na hora de espancar, estuprar e matar, em geral o homem abusa da força física superior. Na hora de se defender e buscar reparação, a mulher se depara com instituições fracas, agentes públicos cínicos, escárnio, como se fosse ela, a vítima, quem merecesse vergonha pela agressão sofrida.

Nesses dias em que se discute um pretenso (ilusório e mentiroso) choque de civilizações, seria cômodo crer que a “civilização ocidental” (essa bobagem midiática), eurocêntrica, democrática e liberal, é imune à violência contra a mulher, que estaria associada a países institucionalmente atrasados, machistas, ou aqueloutros dominados por fanáticos religiosos. Balela.

Primeiramente, os países ocidentais não dão a mínima para os direitos humanos – direitos da mulher incluídos – quando se trata de defender os seus interesses geopolíticos e os lucros das suas empresas. A Arábia Saudita, um dos países mais opressores do mundo, tem nos EUA, na Grã-Bretanha e na França três aliados incondicionais. No entanto, lá são frequentes os casos de trabalhadoras estrangeiras agredidas brutalmente, até a mutilação ou mesmo a morte, sem que a “civilização ocidental” se incomode muito com isso.

Em segundo lugar, nos países de capitalismo avançado, esses que se  autoproclamam “civilizados”, o espancamento, o estupro e o feminicídio são também dolorosamente corriqueiros. Aí, como em toda parte, frequentemente, os homens agressores seguem impunes, em especial quando são capazes de manipular os trâmites legais, por meio do dinheiro e do poder político. Aí, como em toda parte, as mulheres frequentemente não denunciam, porque têm vergonha, porque têm medo, porque são dependentes, porque são coagidas, porque têm que zelar pelos filhos, porque são socialmente desrespeitadas, porque estão cansadas de denunciar e não dar em nada, porque a lei não funciona…

Está em curso, no Brasil, uma situação emblemática: um secretário municipal da cidade do Rio de Janeiro, preferido do prefeito para sucedê-lo, espancou a ex-esposa, conforme consta nos autos policiais. Bateu com força, a ponto de arrancar um dente da mulher. Foi preso? Não. Humilhou-se publicamente? Não. Viu ruírem os seus planos? Não, não e não! Ao contrário, o prefeito atual apressou-se em dizer que o assunto é “uma briga de casal”, enquanto os demais correligionários fizeram para o agressor uma sessão pública de desagravo, com direito a abraços e sorrisos. Resta ver, agora, como se comportarão os meios de comunicação, e se as eleitoras e eleitores se lembrarão do caso quando forem votar, no ano que vem. E se, em se lembrando, votarão no covarde.

Estejamos atentos e ouçamos o cronista querido, de novo. A violência contra a mulher prejudica mulheres e homens. É um entrave econômico enorme e um dos piores problemas de saúde pública. É nódoa moral, que nos desmerece a todos como seres humanos. Pensando como materialista, a violência contra mulher é um corolário bem ridículo para bilhões de anos de evolução. Pensando como crente, a violência contra a mulher nos desqualifica como criaturas de Deus. Pensando como homem, pai, educador e esposo, a violência contra a mulher me dá náuseas.

Laranja, no caso, é um santo remédio.

 

 

O Estrago é Anterior

Dia desses, durante a aula de “computadores e sociedade”, derivávamos por assuntos diversos, como frequentemente ocorre… Foi aí que uma estudante me perguntou:

– Professor, então você não acha que as drogas estão acabando com a sociedade?

– Não. – respondi de imediato – Ao contrário, acho que o amplo abuso das drogas, e o tráfico daí decorrente, só se instalam em uma sociedade já bastante estragada. O estrago vem antes, a avalanche das drogas, depois.

Ante a surpresa da turma, prossegui:

– O amplo e indiscriminado uso das drogas, lícitas ou ilícitas, com ou sem prescrição, é muito mais um sintoma, tal como uma febre: não podemos, de jeito nenhum, confundir o sintoma com a doença, propriamente dita. Se eu tiver pneumonia, tuberculose ou outra infecção grave, e tomar remédio só para baixar a febre, a infecção prosseguirá e talvez me leve à morte. Ou seja, combater as drogas, como um problema em si mesmas, é como combater uma febre sem tratar a condição patológica que a determina.

– Mas, professor, a droga mata, causa violência, destrói famílias…

– Certamente. A febre, se subir demais, também causa convulsões e às vezes mata. Mas em um corpo são isso não acontece. Só em um corpo bastante doente, fragilizado. Com isso, quero dizer que precisamos, sim, prevenir o abuso das drogas e tratar os dependentes, para que não se tornem delinquentes e morram a morte rápida da overdose, ou a morte lenta das sequelas físicas e psíquicas. Embora algo antiquada, a analogia entre sociedade e corpo nos serve, nesse contexto: o corpo social, doente, apresenta sintomas diversos, dentre os quais o abuso das drogas, que a mídia alardeia para escamotear outros temas. Temos de conversar mais sobre as doenças que afligem a sociedade, não apenas sobre o sintomas.

Ato contínuo, olhos nos olhos da estudante que colocou a questão em pauta (vamos chamá-la de Lina), desafiei:

– Lina, o crack ou a cocaína têm espaço na sua vida?

– Não, de jeito nenhum – respondeu rápido, balançando a cabeça.

– Por quê? – insisti – Por que o abuso das drogas não tem lugar na sua vida?

Silêncio total.

– É sobre isso que precisamos pensar, antes de mais nada. Por que as drogas se destacam na vida de algumas pessoas, mas não tem espaço na vida de tantas outras?

Acho que eu mesmo nunca tinha raciocinado nesses termos. Os estudantes também não. De improviso, arrisquei mais algumas considerações:

– Lina, as drogas não encontraram você porque, antes disso, você encontrou sem elas um mundo suficientemente bom. Um mundo com afeto, solidariedade, alegria e disciplina. Integrou-se, com razoável harmonia, a estruturas sociais acolhedoras, embora imperfeitas: um lar, a escola, a universidade, a organização onde você trabalha e, talvez, uma instituição religiosa onde compartilha a sua fé. Por isso, creio, o abuso das drogas nunca foi uma questão para você. Poderia ter sido, é verdade. Pode ser, ainda, para qualquer um de nós, se algum acidente de percurso nos privar das pessoas, estruturas, atividades e valores que dão sentido à vida, conforme a perspectiva de cada um. Ou seja, se pensarmos que estamos irremediavelmente perdidos – ainda que, de fato, nunca estejamos…

As reflexões eram instigantes, mas a aula não era sobre as drogas e o horário avançava. Por isso, demo-nos por satisfeitos, provisoriamente, e retornamos aos tópicos curriculares do dia.

(Dedico esses pensamentos incipientes ao querido colega, amigo e mestre Prof. Dr. Antônio Nery Filho, com quem aprendemos a considerar mais as pessoas do que as substâncias que elas consomem.)

Golpe Semântico

Outro dia recebi por WhatsApp um texto sobre a intervenção militar de 31 de março de 1964 (embora alguns brincalhões garantam que ela ocorreu mesmo em 1o. de abril). Um texto ruim, cujo título e nome do autor deixarei de lado para não dar IBOPE. Digo apenas que foi publicado em um site que difunde as ideias de um homem que foi peça-chave no aparato repressivo do Estado brasileiro, no início dos anos 1970 – os chamados “anos de chumbo”. Usarei um apelido, “Texto 64”, para me referir a esse texto, representativo de tantos outros que justificam, insinuam ou sugerem a intervenção militar como solução para os problemas nacionais de ontem e de hoje. Assim, agrupo sob esse rótulo mnemônico um modelo discursivo que se repete aqui e ali, ao longo das décadas, com contornos ajustados a cada conjuntura, para melhor seduzir.

É um assunto do tipo que habitualmente evito, porque evoca paixões destrutivas. Nesse caso, porém, prefiro me pronunciar, pois o Texto 64 exprime ideias malsãs que, se nunca morreram, vêm ganhando vida nova, nesses dias de perplexidade frente às sucessivas crises e embates que se intensificam no Brasil e no mundo. Em linhas gerais, trata-se de relativizar o autoritarismo, o arbítrio e tudo o quanto caracteriza os regimes de exceção, em nome da “moralidade” e do “patriotismo” (dois termos sempre tão usados e abusados, mas tão pouco explicados). Isso me inquieta bastante, como cidadão e educador. Por isso, aos poucos, pretendo fazer breves notas sobre o Texto 64, na presunção de esclarecer as mentes jovens que às vezes me leem. Hoje, tratarei especificamente de um problema fundamental: a diferença entre golpe e revolução.

Para argumentar bem é preciso, de saída, saber do que se fala. Chegar a um acordo, ainda que provisório, sobre o sentido das termos. O autor do Texto 64, porém, não pensa assim, pois refere-se a “o golpe ou revolução de 1964, chame como queira (grifo meu)”. Não obstante, mesmo quem defende o arbítrio na política não pode usar a linguagem arbitrariamente. Logo, é preciso colocar cada nome no seu devido lugar.

O excelente dicionário Priberam on-line define golpe de Estado como “ação de uma autoridade que viola as formas constitucionais; conquista do poder político por meios ilegais” (http://www.priberam.pt/dlpo/golpe ). Ou seja, há golpe quando forças organizadas institucionalmente, no seio do Estado, atentam contra a ordem jurídica, particularmente com o objetivo de depor um governante alçado ao cargo legitimamente. Foi exatamente o que aconteceu no Brasil. O presidente João Goulart, o Jango, chegou ao cargo com a renúncia de Jânio Quadros, de quem se elegeu vice pelo voto direto, em eleições livres. Menos de três anos depois, setores das Forças Armadas o depuseram, sob ameaça de guerra civil, com amplo apoio dos grandes empresários, fazendeiros, meios de comunicação, igreja, parte expressiva da (então diminuta) classe média e – é claro – com  respaldo decisivo do governo  norte-americano. Logo, em 1964 experimentamos um golpe de Estado civil-militar. Revolução é cousa diversa.

Ainda segundo o Priberam (http://www.priberam.pt/dlpo/revolu%C3%A7%C3%A3o), revolução é “[uma] mudança brusca e violenta na estrutura econômica, social ou política de um Estado (ex.: a Revolução Francesa)”. Ou “reforma, transformação, mudança completa”. Ou, ainda, “modificação em qualquer ramo do pensamento humano (ex.: revolução literária)”. Ora, no Brasil não houve revolução, simplesmente porque o movimento de 64 não almejava mudanças, transformações ou reformas, mas, ao contrário, a manutenção do status quo, das estruturas arcaicas de exploração e dominação que há séculos caracterizam o País. Revolução haveria (independente do mérito) se, para mudar as estruturas, grupos externos à máquina governamental investissem contra o poder instituído. Mas, no Brasil, quem passou por cima da lei e impôs ao País um governo autocrático foram agentes do Estado – no caso, os detentores da força bélica (embora inúmeros militares tenham se mantido fieis à sua missão constitucional, com prejuízo da própria carreira).

Em 1964, portanto, tivemos um golpe de Estado, cujas complexas determinações históricas é lícito investigar e debater. O que não cabe, mais de cinquenta anos depois, é torcer as palavras para distorcer os fatos, e com isso, contaminar o debate. Juntar ao golpe de Estado um indefensável golpe semântico.

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PS.: Pensando melhor, a bem do debate é preciso dar as referências do “Texto 64”. Seu autor é Alexandre Paz Garcia (não confundir com o Alexandre Garcia da Rede Globo). O título original, “O que foi 31 de março de 1964”. Disponível em http://www.averdadesufocada.com/index.php/contra-revoluo-de-1964-notcias-106/10043-210114-o-que-foi-31-de-marco-de-1964. Acesso em 4 de abril de 2015.

Também a benefício do debate recomendo o site http://arquivosdaditadura.com.br, que publica uma fartura de documentos pesquisados pela equipe do jornalista Elio Gaspari, como suporte para os seus livros sobre o regime pós-64.

A Equação se Fecha

O Banco Central Europeu (BCE) emitirá, nos próximos meses, um trilhão de euros (repito, um trilhão de euros), a fim de comprar títulos da dívida pública no próprio continente. Em outros tempos, diríamos que vão pintar dinheiro. Nos dias atuais, vão economizar tinta e papel moeda, e simplesmente mudar uns Bytes nas bases de dados pertinentes. “Opus focus”, exclamariam os mágicos de salão: na cartola não havia nada, mas agora há um trilhão de euros novinhos em folha. Seja como for, acho que essa notícia fecha a equação do recente “pacote de maldades” do governo brasileiro, que beneficia os rentistas especuladores, em detrimento dos trabalhadores e empreendedores de verdade. Vejamos.

Aumentando a liquidez na Europa, os juros de lá cairão, e haverá mais dinheiro disponível para investir. Onde? Onde se ofereça maior rentabilidade como o mínimo de riscos. Bingo! O capital excedente, tornado especulativo, virá ao Brasil se multiplicar facilmente, para voltar à Europa e aliviar o arrocho deles.

Conforme explicado no post anterior, os nossos juros altos se sustentam à custa de privações para o nosso povo, com os mais pobres, claro, levando a pior. Por outro lado, a alta dos juros no Brasil vem a calhar ante o surto de generosidade do Banco Central Europeu, pois abre mais espaço para investimentos rentáveis e seguros, em um período de incertezas mundo afora. Conclusão: as nossas privações farão a alegria dos mercados no Velho Continente, pois o pacote de maldades daqui casa direitinho com pacote de bondades de lá – uma espécie de transfusão de sangue, em que o faminto doa ao bem alimentado.

Há muitos anos, uma pessoa experiente, do interior da Bahia, ensinou-me que “o cavalo morre para a alegria dos urubus”. E qualquer semelhança com os séculos de exploração colonial não será mera coincidência.

Perversão Fiscal

O mais recente relatório da Oxfam sobre a desigualdade no mundo reafirma o óbvio: a riqueza está cada vez mais concentrada. Em 2016, segundo as projeções, 1% da população global deterá conjuntamente o mesmo patrimônio dos outros 99%. Atualmente, 80% da população fica com apenas 6% da riqueza.

Esse relatório aparece dois ou três meses após um outro, que mostra o crescimento do número de multimilionários no mundo (e no Brasil), após a crise global de 2008-2009 – período de grandes apuros para centenas de milhões de trabalhadores que ficaram sem emprego ou tiveram os seus salários reduzidos, além dos agricultores familiares levados à falência, e às vezes, ao suicídio.

Isso não ocorre por acaso, ou devido a alguma lei natural inelutável (aliás, cabe lembrar que as leis econômicas não são leis naturais, como as da física, química ou biologia). O enriquecimento desproporcional dos mais ricos, às custas dos outros, decorre de arranjos institucionais historicamente constituídos, que engendram decisões políticas favoráveis  aos detentores do grande capital. Os mecanismos dessa perversão são diversos, incluindo, com algum destaque, as manipulações na área fiscal.

Nos últimos dias, aqui no Brasil, o governo federal restringiu uma série de garantias previdenciárias, em prejuízo dos trabalhadores socialmente mais vulneráveis. Depois, aumentou os impostos sobre os combustíveis, com efeitos inflacionários que serão sentidos por todos os não-ricos. Agora, a presidente Dilma limitou a correção da tabela de imposto de renda, arrochando ainda mais a minoria de assalariados que têm rendimentos decentes, mas não exorbitantes. Por outro lado, nenhuma palavra sobre a taxação das grandes fortunas ociosas, das grandes heranças, da especulação financeira ou das remessas de lucros ao exterior.

A dívida pública aumenta sempre que o governo aumenta os juros a pretexto de controlar a inflação, como vem fazendo nos últimos meses. Destarte, é preciso assegurar o famigerado superávit primário, a fim de satisfazer os credores: basicamente, os bancos e fundos de investimentos que emprestam dinheiro ao Estado. Logo, alguém deve pagar a conta. E como de hábito, em nosso País, tira-se mais um pouco dos remediados (os que ainda restam), preservando-se as regalias das elites. Não é à toa que os super-ricos brasileiros enriquecem cada vez mais, enquanto a chamada classe média vai se nivelando por baixo.

Do outro lado do Atlântico, na Grã-Bretanha, o ministro da fazenda prepara um segundo corte de impostos a benefício das petrolíferas que atuam no Mar do Norte. Ocorre que, com a recente baixa dos preços do petróleo, a extração por lá (diferente daqui) deixa de ser rentável. Então, o sistema funciona assim: se o preço do petróleo aumenta e causa inflação, o povo paga a conta, e os donos das petrolíferas faturam alto. Quando o petróleo baixa, os preços não caem, mas o governo arrecada menos com impostos e usa o dinheiro do Estado (ou seja, do povo) para ajudar as empresas.

De modo geral, em qualquer parte, a iniciativa privada investe conservadoramente, com o máximo de salvaguardas. Quando os lucros vêm conforme o esperado, os investidores ganham. Quando não vêm, os governos os socorrem para que não percam. Em suma, a regra é privatizar os lucros e socializar os prejuízos.

Ao afagar os credores e socorrer os investidores, o governo gasta mais e arrecada menos, o que significa redução dos investimentos em infraestrutura e bem-estar social. Os detalhes diferem, mas o padrão é o mesmo pelo mundo afora.

Para saber mais, recomendo enfaticamente o livro “Thomas Piketty e o Segredo dos Ricos”, Ed. Veneta.
http://www.livrariacultura.com.br/p/thomas-piketty-e-o-segredo-dos-ricos-42692523
http://www.saraiva.com.br/thomas-piketty-e-o-segredo-dos-ricos-8073548.html